True Detective e a Ilustração da Humanidade

O texto contém leves spoilers sobre a primeira temporada.

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True Detective terminou sua primeira temporada no Domingo, 09 de Março de 2014, como uma das mais aclamadas pela crítica e amantes dessa forma de entretenimento.

Mas por que?

 

Na primeira temporada do mais novo produto da gigante HBO, Nic Pizzolato entrega com maestria uma obra onde o foco é revertido nas entrelinhas e servido com uma colher generosa de esmero. Tudo é detalhadamente cuidado e construído para fazer sentido em muitas e únicas interpretações, que mesmo variáveis, se relacionam sutilmente. Pra uma série que chamou tanta atenção desde a época de seu anúncio, acredito que a entrega foi digna, satisfatória e honestamente emocionante.

 

Com o mistério como pano de fundo, TD se relaciona com o telespectador através de cada personagem brilhantemente criado.

Temos variadas facetas do ser-humano como conhecemos e somos:

  • – a mulher que quer manter e evoluir com sua família na esposa de Marty, Maggie;
  • – o conflito da juventude e o desejo por algo mais em Lisa;
  • – a perda da inocência e a compreensão do mundo ao redor nas filhas de Marty, Maisie e Audrey;
  • – a constante batalha entre personalidades em um ambiente de trabalho, na delegacia, e entre os dois pólos distintos representados pelos investigadores principais;
  • – a evolução de conceitos onde já era acreditado não ser possível evoluir, além da superação de preconceitos, em Marty;
  • – a constante luta para manter a sanidade depois de uma grande perda, em Rust;
  • – o preço que se paga por se enxergar além, e a comodidade do conformismo na relação entre Rust, Marty e Steve Geraci;
  • – o constante contraste da vida. Luz e escuridão.

 

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Os exemplos são poucos dada a extensão filosófica da série. Com uma equipe que mostrou a que veio, True Detective acerta na fotografia que, dada a linha do tempo abordada pela produção, torna a mesma atemporal. Na direção de arte que cria uma atmosfera tão sombria como limitada à um mundo próprio, na direção e história que nos prende a cada detalhe criado e ativa a imaginação em um ritmo raro em programas televisivos, e é claro, atuações maravilhosas que deixam claro que essa arte evoluiu de maneira surpreendente e ainda cria expectativa no que está por vir.

 

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Que Matthew McConaughey está em uma ascensão explosiva muitos sabem, mas ainda é surpreendente ver o que esse ator é capaz de fazer na tela. Desde o piloto, criou um personagem já inesquecível, envolto em mistério e dores, Rust Cohle é um detetive cético e, a primeiro momento, pessimista, mas dada a devida chance fica claro que Cohle é alguém perturbado, e não no sentido psicológico com suas alucinações provocadas por anos de trabalho infiltrado no mundo das drogas, mas sim por dores da perda de amores irreparáveis e insubstituíveis em sua mulher e filha. Se visto por completo, é possível ver que esse pessimismo não existe, e em vez disso paira em sua volta um positivismo tímido, e uma esperança resistente, pois caso o contrário, já teria sido escolhida a alternativa à vida. Dilema esse que floreia todos os episódios, mostrando como vida e morte são partes da mesma equação e estão presentes em toda a nossa volta, de maneiras mais sutis do que imaginamos.

 

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O trabalho de qualidade de Woody Harrelson também não é novidade, e eclipsar sua performance devido à grande desenvoltura de McConaughey é tentador, mas um erro gravíssimo. Marty Hart carrega nos ombros todo o peso de passar as emoções que Rust suprime. Entre a tentativa de manter uma família, ser bem sucedido em uma carreira, resistir, ou não, à tentações do cotidiano, Hart luta constantemente, e sua batalha é nítida e bem transmitida graças ao talento de Harrelson. É quem conduz a narrativa com os pés no chão, com defeitos e qualidades como temos todos nós, mas ainda assim exalando o desejo de ser o melhor que pode ser.

 

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No material de divulgação, um dos slogans é “O homem é o animal mais cruel”. Durante todos os episódios isso é trabalhado de forma em que você não se esqueça disso, mas a conclusão traz a visão de que somos mais que isso. Essa verdade não é retirada, pois é uma verdade, mas precisamos alcançar fora desse véu de feiura que impregna nossa própria existência, ou ficaremos loucos. Loucura essa personificada pelo vilão da jornada.

 

Em uma trama onde muitas pontas ainda estavam soltas antes do último episódio, a série chega a causar uma sensação de alegria e conforto com um desfecho satisfatório. Temos a tradicional redenção do heroi, com direito a alusão da imagem de Rust em um fundo estrelado no seu reflexo na janela referenciando um messias, num final que não passa um sentimento de mesmice, exercitando a nossa compreensão de criatividade. E para fechar, um diálogo digno de prêmios e reflexões para qualquer momento, que não só ilustra nossa constante evolução existencial, mas mostra como toda a condução do desenvolvimento dessa primeira temporada é o reflexo de todos nós, onde os personagens principais eram parte de toda a atmosfera de cada episódio à nível atômico. Onde fica clara que toda a densidade ao redor de Rust Cohle e Martin Hart era tão personagem quanto os dois citados.

 

Sobre as estrelas…:

“Antes, só havia escuridão. Se me perguntar, a luz está ganhando.”

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