– O que foi que eu fiz Alfred? Tudo que minha família, que meu pai construiu…

– O legado dos Wayne vai além de tijolos e cimento.

– Eu queria salvar Gotham. Eu falhei!

– Por que caímos, Patrão Bruce?

– …

– Para aprendermos a nos levantar!

Esse diálogo, retirado do filme Batman Begins, da trilogia Cavaleiro das Trevas de Cristopher Nolan, resume uma das características que sempre andaram de mãos dadas com o personagem. Superação. Por caminhos tortuosos, Bruce Wayne representava de um jeito dramaticamente realista a ideia de superação. A dor da orfandade precoce foi o combustível para o nascimento de um herói, com o qual nos identificamos facilmente, pelos traumas e dores que vivemos, mas que não nos impedem de tentar fazer algo de bom em nossas vidas. Fazer algo de bom com, ou apesar de nosso lado sombrio e de todas nossas cicatrizes. Isso sempre foi o Batman. Abrir mão de parte de sua vida para defender a de outros. Lutar para que ninguém mais precise passar pelo que ele passou. Combater o crime não só como forma de vingança contra uns, mas como forma de proteção para outros. Nisso residia o heroísmo do Homem Morcego.

Na edição número 12 do Batman pós Rebirth, porém, isso pode ter mudado um pouco. Escrita por Tom King e com arte de Mikel Janin, essa edição revelou uma informação sobre o passado de Bruce Wayne que pode subverter todo o significado de seu vigilantismo. A revelação tem ligação direta com o nome do arco de King, “I am Suicide”, que muitos ligavam ao fato de o Batman formar um grupo a lá Esquadrão Suicida. Na trama, o morcego escreve uma carta para Selina Kyle, que está sendo transferida para o Asilo Arkham após ser condenada por matar mais de 200 pessoas. E nessa carta Bruce Wayne conta que tentou suicídio aos dez anos, cortando os pulsos com a navalha de seu pai, logo depois de ficar órfão.

“Eu tinha dez anos. Eu peguei uma das navalhas do meu pai e me ajoelhei. Coloquei o metal no meu pulso. Senti o frio da navalha me cortar. O sangue na minha mão. Eu olhei pra cima. Pros meus pais. Disse a eles que sentia muito. Eu estava de joelhos em Gotham. E eu estava rezando, unindo minhas mãos, o sangue e a lâmina entre elas. Eu rezei. E ninguém… Ninguém respondeu. Ninguém respondeu. Ninguém respondeu. Eu estava sozinho. Como todos os outros, como todo mundo em Gotham. Eu vi todos em Gotham, todos nós. Estávamos todos de joelhos, as mãos unidas, o sangue e a lâmina entre elas. Nós rezamos. E ninguém respondeu. Eu vi. E entendi, finalmente. Eu derrubei a lâmina e entendi. Eu estava pronto. Eu consegui, eu me entreguei. Minha vida não era minha e eu sussurrei… Eu juro pelo espírito dos meus pais que vingarei suas mortes passando o resto de minha vida combatendo criminosos. Minha vida deixou de ser minha vida. Foi a escolha de um garoto, a escolha por morrer. Eu sou Batman. Eu sou suicídio.”

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É verdade que a figura do Batman nunca foi a maior representação de boa saúde mental, e seus prováveis instintos suicidas já haviam sido levantados em outras oportunidades, mas essa informação insere em sua jornada uma carga dramática pesadíssima, que coloca em xeque as fundações altruístas de sua identidade. Mais do que nunca isso deixa claro que Bruce Wayne é um personagem, não o Batman. A verdadeira personalidade é a do Morcego, que tem como único objetivo de vida antagonizar com alguém ou com algo. Ter contra quem lutar é o que o mantém vivo, talvez por isso ele concentre seus esforços em métodos punitivos e não preventivos. Tendo seu intelecto, sua influência e seu dinheiro, haveria formas muito mais produtivas de se combater a criminalidade e a corrupção na cidade, do que sair por aí metendo porrada em mafiosos.

Batman é um suicida e essa é uma informação que pode ser interpretada de duas formas. Num viés positivo e até conscientizador, de uma pessoa com tendências suicidas que superou essa situação ao estabelecer um propósito que deu valor a própria vida. E num viés mais trágico, de uma pessoa que abriu mão da própria vida em busca de uma cruzada vazia que lhe daria uma morte supostamente nobre. É o tipo de dualidade que torna um personagem cada vez mais rico. Seria o Batman, fruto de alguém que desistiu de viver, ou de alguém que desistiu de morrer?

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Vinicius Salazar

Um estudante de história de 23 anos que ama filmes, bons e ruins, e acha que tem algo a dizer sobre eles.

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