Supermax, a surpreendente série de terror da Globo

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Inovação não é exatamente o ponto forte da Rede Globo. Ao longo de mais de meio século a emissora apostou na repetição para se tornar líder de audiência e cativar seus espectadores. Sua programação, desde jornais até programas de auditório e variedades, conta com atrações que ficam no ar por décadas. E o que dizer da teledramaturgia, ponto forte da casa, tanto nas novelas quanto nas séries e minisséries, nunca houve muita inovação temática ou de linguagem. E apesar das questões de logística e estrutura, que habilitam a emissora a realizar grandes produções, é de se surpreender que Supermax venha de lá.

A série nos mostra um reality show de confinamento que acontece em uma prisão de segurança máxima, no meio da floresta amazônica, onde doze desconhecidos com um passado obscuro irão lutar pelo prêmio de 2 milhões de reais, mas algo dá errado eles tem poucas chances de sair vivo de lá. Numa estratégia para ganhar o público e se estabelecer na “era do streaming”, a emissora disponibilizou onze episódios, dos doze totais, no aplicativo GloboPlay, dias antes da estreia oficial. Onze episódios que estabelecem Supermax como uma série que merece ser vista, e que pode marcar o inicio de uma nova era na tv aberta brasileira.

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Uma das coisas que observamos de cara em Supermax é que ela não tem medo de esconder seu viés referencial e suas influências. E quando eu digo de cara é de cara mesmo, na abertura já sentimos uma aura de True, tanto Blood quanto Detective. Mas ela não se resume a uma colagem de referencias, o show tem identidade própria e é nesse ponto que ele brilha. Toda a familiaridade evocada, pelo contexto de reality show, pela presença do apresentador Pedro Bial, pelas referencias a séries gringas, serve, antes de qualquer coisa, para diminuir o choque ao ver uma produção desse tipo na TV aberta nacional, mas ela é feita de forma tão orgânica que não dá pra encarar como um defeito.

Supermax é eficiente ao criar tensão de várias maneiras, além do mistério sobre a dinâmica do reality e da sugestão de que tem algo de errado acontecendo, ainda temos a disputa por um prêmio milionário, que por si só já geraria conflitos o suficiente, mas que com o adicional de um passado violento a cada um dos personagens, gera ainda mais inquietação, tornando toda interação entre eles uma potencial explosão. Some isso aos momentos de terror bem executados e temos em mãos um thriller muito empolgante.

Os personagens e seu desenvolvimento também são pontos positivos da série. Sabemos de cara de seu passado, mas conhecemos apenas suas próprias versões da história, algo que permite trabalhar com suas dualidades e segredos. No começo, temos a impressão de que são todos criminosos de circunstância, não pessoas más, mas que tiveram um momento de fraqueza, ou que fizeram algo ruim, mas por “um motivo nobre”. E no decorrer dos episódios vamos descobrindo a verdade sobre suas personalidades, além de vê-las sendo influenciadas pela situação de terror que eles vivem, nos mostrando quem é realmente mau ali.

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Aliás, a história pregressa dos personagens traz situações relevantes e atuais á tona. Repressão e truculência policial e a influência do sistema na formação de policiais violentos; violência doméstica e suas consequências extremas; corrupção; a cumplicidade da igreja em casos de abuso; preconceito de gênero e orientação sexual; eutanásia; síndrome de Estocolmo; dependência química. Até o episódio de flashback, que estabelece a “mitologia” da série, nos fala sobre o poder de grandes corporações e sobre fanatismo religioso. São temas que não são debatidos, de fato, mas cuja presença encorpa a série e seus personagens, dando certa relevância ao roteiro, indo além do puro entretenimento. Além de nos fazer sempre ficar com um pé atrás com os personagens.

A produção, como de costume na casa, é impecável. Temos um elenco seguro, formado majoritariamente por nomes pouco conhecidos, onde alguns demoram um pouco mais pra encontrar o tom, mas que não comprometem em suas atuações. Enfim, Supermax é uma série com altíssimo valor de entretenimento, que surpreende e diverte bastante, e como primeira incursão da tv brasileira no gênero suspense e terror, é muito melhor de que eu esperava.

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