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Há um tipo de filme que provoca nesse que vos profere uma urgência em escrever. Não são necessariamente filmes perfeitos, mas obras que se destacam por um ou outro motivo. Alguns se destacam tanto que “criticar” pode ser transformado em um ato de somente “elogiar”. Esse tipo de filme exige um cuidado grandíssimo nessa hora para que aquele que escreve não caia nas graças e belezas da fita e de alguma forma esqueça de dissertar sobre o que não funciona, ou é destoante, no filme. Por isso é um prazer ter assistido à essa obra e é um prazer também ter esse espaço para escrever sobre ela.

Músicos tocam seus instrumentos. Eu toco a orquestra.

Danny Boyle (Trainpotting – Sem Limites, Quem Quer Ser um Milionário?) é um dos grandes cineastas atuais. Aaron Sorkin (A Rede Social, O Homem que Mudou o Jogo) é um dos melhores roteiristas que temos. Michael Fassbender (Slow West, Shame) impressionantemente consegue melhorar a cada ano. A Trindade de Steve Jobs (2015) se encontra neste em absoluta forma. O desafio de recontar a história (parte dela) de uma das mais idolatradas e complicadas personalidades dos anos recentes é enorme, exigente de uma equipe competente ao extremo. Certamente a escolha desses (e de todo e elenco), mesmo que parte dessa trindade tenha sido uma segunda opção, foi muito feliz, com cada um dando a sua magia ao resultado final, tornando essa uma cinebiografia que foge do comum, que tem identidade própria e que, por isso, se sobressai.

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A começar pela estrutura, pelo storytelling do filme, que opta por analisar pontos chave da vida de seu sujeito homônimo ao invés de recontar sua trajetória. Essa opção traz o mais importante em uma representação de pessoa real: deixa espaços vazios para que o espectador os preencha e os interprete. O que vemos na magistral interpretação de Michael Fassbender é um retrato de Jobs em momentos de sua carreira: o primeiro em 1984 no lançamento do Macintosh, o segundo em 1988 na apresentação da NeXT e o terceiro em 1998 no lançamento do iMac. Graças a violência verbal do roteiro de Sorkin (adaptado do livro de Walter Isaacson), o filme prende do início ao fim sem parecer forçado, já que retrata momentos dispersos. Os poucos flahsbacks são eficientes, bem colocados e iluminativos. Os diálogos são de uma pertinência e potência únicas, engrandecendo a construção direcional de Boyle, que apresenta pontualmente ângulos que desafiam a visão e passam a emoção de um momento de forma enérgica. As rimas entre o produto que Jobs visiona e o próprio biografado apresentam-se naturalmente e nos permitem ter uma perspectiva de como Steve Jobs funcionava.

O grandioso elenco ainda nos presenteia com a brilhante interpretação de Kate Winslet (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Foi Apenas um Sonho) como Joanna Hoffman, a esposa-de-trabalho de Jobs, uma personagem forte o suficiente e importante o suficiente para ser bruta e emocionante nos momentos certos. Seth Rogen (Ligeiramente Grávidos, Segurando as Pontas) como Steve Wozniac dá a dimensão do que a brutalidade e petulância de Jobs causavam nos seus próximos, bem como Andy Heartzfeld, muito bem interpretado pelo subestimado Michael Stuhlbarg (Um Homem Sério, Boardwalk Empire). Jeff Daniels (Perdido em Marte, Boa Noite e Boa Sorte) é outro embate interessante na sua interpretação sólida de John Sculley. Katherine Waterston (Vício Inerente, Conduta de Risco) desempenha bem a mãe da suposta filha de Jobs nos poucos momentos em que aparece, mas nesses poucos momentos é possível ver sua confusão. A filha, Lisa (interpretada por Makenzie Moss, Ripley Sobo e Perla Haney-Jardine), é um contraponto interessante à frieza de Steve, sendo a relação dos dois uma das principais linhas da história.

Porém, alguns momentos parecem artificiais ou mal colocados. Essa relação de Steve e Lisa é utilizada em momentos esparsos e pode soar como um eufemismo ou uma espécie de redenção do sujeito do filme, coisa que não é, tratando-se de uma faceta a mais de Jobs, o que não elimina a falha do roteiro, ou da montagem, nesses pontos.

Um dos melhores atributos do longa reside na sua fotografia. Aliada a exuberante direção de Danny Boyle, a elegância e o cuidado de um filme que não é feito por qualquer um é também expresso no trabalho de Alwin H. Küchler, capturando os momentos de 1984, 1988 e 1998 em 16 milímetros, 35 milímetros e digital, respectivamente, dando ao longa uma textura muito própria e sofisticada, atraindo cada vez mais a atenção ao longo das pouco mais de duas horas de exibição. A trilha sonora é pontual e igualmente elegante, usando tanto arranjos quanto as composições de Daniel Pemberton com segurança.

Por fim, Steve Jobs é uma obra que entra para o panteão das cinebiografias que realmente valem à pena serem assistidas. Um filme que emana elegância, graça (nos dois sentidos da palavra), vividez e vigor em todos os seus aspectos. Danny Boyle e Aaron Sorkin são duas forças exuberantes que deveriam trabalhar em conjunto mais vezes.

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