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O problema da maioria dos remakes é soar simplesmente como uma cópia mal feita ou uma reprodução desnecessária, mas quando ele muda as perspectivas da obra original, situa e atualiza problemas e questões recorrentes, e ainda escala uma equipe competente para tal tarefa, obra e fãs só tem a ganhar.

Carregado de preocupações e um certo preconceito por parte dos moradores desse planeta, eis que surge no horizonte o NOVO ROBOCOP, e escrevo com letras garrafais para que fique claro, é um NOVO ROBOCOP. Padilha e o roteirista estreante Joshua Zetumer conseguiram criar uma história totalmente nova para o Policial do Futuro.

O esqueleto ainda é o mesmo, conhecemos o correto agente da lei, Alex Murphy, que sofre um atentado que o coloca bem perto da morte. O único jeito de permanecer vivo é se confinar a uma armadura robótica de alta tecnologia, o problema é que essa armadura pertence a uma grande corporação que pretende usar a tragédia de Murphy, e a sua nova forma, para defender suas próprias questões.

Diferente do filme de 1987, a sátira politica, apesar de presente, não é o mote central do longa. Dessa vez a história gira em torno do auto-conhecimento do protagonista, o que faz dele um ser humano? O pouco que sobrou de suas partes biológicas ou a sua consciência? Ao contrário do Murphy de Peter Weller, que ia se humanizando no decorrer da história, o de Joel Kinnaman vive um processo de maquinização, quando os interesses da Omnicorp acabam indo contra os do honesto policial e ele tem as suas asinhas prontamente cortadas. E sim, dessa vez Alex e sua família tem consciência de sua transformação desde o inicio.

Como pano de fundo dessa atípica jornada de herói temos a sociedade norte-americana se dividindo em dois blocos, aqueles que pedem em seu país, a mesma política de segurança que é usada pelo próprio governo nos outros lugares do mundo, com sistemas de proteção robotizados para poupar a vida de agentes da lei; e do outro, os que dizem que por mais bem preparada e programada que seja uma máquina, ela nunca terá sentimentos humanos, e por isso não tem poder para julgá-los.

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Padilha acaba usando de algo que já esteve presente nos dois Tropas de Elite, a exposição de vários pontos de vista e liberdade para o espectador escolher a qual se apegar. Ele também não deixa de mostrar, ainda que com menos ênfase, a ganância das corporações, a corrupção na polícia, a força da mídia reacionária e sua facilidade em moldar a opinião pública, e o frequente uso de tragédias pessoais como moeda política (como vimos acontecendo recentemente com a morte do cinegrafista Santiago Andrade).

Outro ponto positivo é que o tom caricatural está mais suave, mas ainda se faz presente, dessa vez o CEO vivido por Michael Keaton é muito inescrupuloso, porém é factível, assim como o âncora sensacionalista de Samuel L. Jackson e o cientista de Gary Oldman, com todos os seus dilemas.

Nas cenas de ação é que dá pra notar a falta que faz uma classificação mais alta, a ausência de violência gráfica é sentida na hora que termina o filme e não termos aquele choque que o faz ficar grudado na mente por um bom tempo. É claro, temos a angustiante cena da desmonta e a bela cena do violão, mas ainda assim. A ação no estilo videogame é bacana sim, mas já foi usada tantas vezes que ela passa bem despercebida.

No fim, ganhamos um filme de ação competente, com boas atuações, com Gary Oldman gritando e com José Padilha mostrando seu belo cartão de visitas para Hollywood. No meio de um bando de remakes dispensáveis, temos um que não te pede pra esquecer o original, e mostra que há novos horizontes a serem explorados por velhos personagens.

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