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Quando eu escrevi o review da primeira temporada de Scream – que você pode ler aqui – citei que, apesar dos problemas, ela conseguia equilibrar o fator legado e ao mesmo tempo trilhar seu próprio caminho, mantendo o fator de entretenimento com um texto razoavelmente relevante. Pois bem, após esses doze episódios da segunda temporada, quase tudo mudou. A série ainda consegue divertir, é verdade, mas é muito difícil não atentar para os inúmeros defeitos do show.

Scream tem dois problemas difíceis de ignorar, o primeiro é praticamente inaceitável dentro do gênero slasher: ela tem peninha de seus personagens. Já tinham sido poucas mortes no primeiro ano, agora foram menos ainda. Uma série que se guia pela morte não pode criar um grupo tão grande de personagens intocáveis. Cabeças precisam rolar. Essa insistência em proteger seu elenco não só trai o gênero, como tira qualquer gravidade da série e torna o conjunto altamente superficial.

Outro problema é o roteiro que parece não ser concebido como um todo, e sim de forma altamente episódica, criando uma sensação de desconexão entre os capítulos. Acontecimentos aparentemente importantes simplesmente se perdem de um episódio para outro, criando furos claríssimos no roteiro. E isso se nota também na virada da primeira para a segunda temporada, o gancho imposto pela revelação do assassino e de sua suposta cúmplice foi desperdiçado com uma justificativa pouco aceitável. O que parecia ser uma decisão inteligente e corajosa, no caso revelar o segundo assassino ao público antes da descoberta dos personagens, foi desperdiçado em uma reviravolta que não fez muita diferença para o desenrolar da história.

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Tirando o grupo de cinco protagonistas, todos os outros personagens são meras distrações e a maioria deles nem serviu para aumentar a contagem de corpos. Brooke, a melhor atriz e personagem mais carismática do grupo, foi escanteada demais. As subtramas envolvendo o novo xerife e mãe de Emma e seus segredos não levaram a lugar nenhum. O envolvimento do prefeito com a tia de Kieran também não. Zoe foi uma personagem cujas interações não serviram pra nada. Se você excluísse a participação da personagem absolutamente nada seria alterado. Enfim, uma série de retardatários que serviram para enevoar um pouco a identidade do segundo assassino, cuja revelação não fugiu do que fora construído até ali. O problema é como se deu essa revelação. O gatilho da frase repetida sem querer é muito batido, e você fazer uma série baseada na franquia Pânico e não fazer o assassino tirar a mascara na hora H é, no minimo, um sacrilégio.

A metalinguagem, o sarcasmo e a inteligência do texto, que são a identidade da franquia cinematográfica, sumiram na segunda temporada. O mais próximo que eles chegaram de algo assim foi com os títulos dos episódios, que fazem referências a filmes famosos que tem uma suposta relação com os acontecimentos do capítulo – algumas tão superficiais que dá até vergonha. Outro fator que incomoda é a falta de presença do assassino. Existem pouquíssimos embates entre ele e os mocinhos, seus poucos assassinatos são teatrais demais e falta a energia do Ghostface original.

Imediatamente ao fim da temporada foi anunciado um especial de duas horas para o Halloweeen, que deve ser a maneira encontrada para amarrar as várias pontas soltas e resolver o cliffhanger da última cena, já que a audiência dessa temporada foi bem menor do que a MTV esperava, e que deve indicar um cancelamento, apesar da considerável base de fãs que a série conquistou. Espero que esse especial sirva para ajustar o tom e honrar o espirito da franquia, coisa que essa temporada não fez. Scream pode não ser uma série ruim, mas ela é superficial demais para o legado que carrega.

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