Rubem Alves tem um texto no qual diz que as pessoas são como donas de pensões, onde cada uma de nossas sub personalidades são hóspedes, que vez ou outra saem de seus quartos pra zoar no hall de entrada, deixando toda bagunça e responsabilidade pela algazarra nas costas de seu senhorio.  David Haller não é como os outros, ou como nós. Ele não é dono de uma simples pensão com paredes brancas e janelas azuis, como diria Rubem Alves. Ele está mais para diretor de um manicômio projetado por Salvador Dalí, onde alguns quartos não tem porta e os internos caminham livremente pelos corredores.

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Assistir Legion é como fazer um tour sem guia por esse manicômio, entrando e saindo de quartos bagunçados, passando por corredores com uma iluminação diferente e dando de cara com algumas salas trancadas. Salas onde encontraríamos as respostas, eu suponho, mas as quais ainda não temos acesso. Nesse tour encontramos alguns funcionários do local, pessoas que estão ali para ajudar o diretor a entender e controlar tudo o que acontece, mas que por vezes ficam tão perdidos quanto o próprio. Encontramos também os internos, que vivem tomando o controle e causando estragos sérios ao diretor, ao manicômio e até mesmo aos vizinhos que não tem nada a ver com situação.

Assistir Legion também é presenciar um espetáculo sensorial, que mistura inventividade narrativa com poesia visual. O conjunto de cores e sons cria todo um clima de psicodelia, com pitadas de surrealismo, sendo coerente com a construção da trama, que se passa e reflete, em sua maioria, uma mente perturbada e cheia de conflitos. Os trabalhos de iluminação, edição e mixagem de som ganham uma importância narrativa rara de se ver por aí, pois elas não trabalham apenas na construção das situações, mas são manifestações claras das atitudes e habilidades dos personagens.

Mas assim como nem todo mundo teria estrutura para fazer um tour por um manicômio, por motivos óbvios, nem todo mundo terá o desprendimento necessário para comprar a proposta de Legion, por motivos que ficam mais claros no decorrer dos episódios, mas que são sentidos logo de cara. Por exemplo, ao anunciar Legion como um spin-off dos X-Men, o show criado por Noah Hawley ganhou de presente o selo “série de super herói”, coisa que ela não é, pelo menos não nos moldes convencionais. Temos um ou outro conceito similar ao que vemos no universo dos X-Men, mas nada que conecte a série a esse universo. Até o termo mutante é utilizado com bastante cuidado aqui. Essa quebra de expectativas pode ser um dos fatores que tem mantido a audiência abaixo do esperado.

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Outro fator que pode afastar o público é que Legion mantém um quê meio experimental, apesar de se adequar ao arquétipo de protagonista da moda, o cara mentalmente quebrado, com claros problemas psiquiátricos, seus caminhos narrativos, seu visual e até o fato de não estar posicionada em uma época especifica, são características não muito comuns na TV e com as quais o consumidor médio de séries pode não se conectar.

É inegável que Legion tem algo de diferente pra oferecer, e o faz com capricho na produção, com atores talentosíssimos e com bastante coragem em sua abordagem, mas é uma série que precisa tomar cuidado para não se perder na própria loucura, ou vai acabar trancada num quarto falando sozinha.

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Avaliação.
Ótimo

Vinicius Salazar

Um estudante de história de 23 anos que ama filmes, bons e ruins, e acha que tem algo a dizer sobre eles.

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