Review: House of Cards (Netflix) – 4ª Temporada

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Surpreendente. Por mais impactante que tenham sido as últimas temporadas de House of Cards, finalmente chegamos num ponto em que podemos dizer que o que vimos é um clássico da televisão e cada vez mais, vemos a história de uma série televisiva que será recordada daqui a anos, sendo contada diante de nossos olhos. House of Cards cumpriu com a expectativa – que você pode ver aqui – e superou em muito sua temporada anterior. Se você ainda não assistiu, pare agora de ler e corra para o Netflix mais próximo e para sua felicidade, assista a quarta temporada!


 Spoilers a partir desse ponto


 

Essa temporada teve um ritmo muito diferente do usual da série e foi dividida em três atos quase que subsequentes e aplicando um ritmo tremendo na transição entre eles. O roteiro conseguiu amarrar de forma inédita vários personagens ótimos e fechar de forma coerente algumas pontas soltas deixadas para trás nas temporadas anteriores. Alguns personagens, principalmente da segunda temporada, são recorrentes em cena e o protagonismo de Frank Underwood (Kevin Spacey) é dividido solidamente entre todos, que estão sempre buscando vencer os mais acirrados embates para alcançar a qualquer custo a vitória.

O primeiro ato, e maior deles, é o mais saudosista da temporada. Vemos todas as reações possíveis a separação de Frank e Claire no final da temporada anterior, porém a campanha contra Heather Dunbar (Elizabeth Marvel) parece cada dia mais complicada e de forma mais cadenciada, retorna Lucas Goodwin, dando um show de convencimento e mostrando-se um ator mais desenvolvido do que em sua última participação. A relação da loucura aumentada com a sede de vingança, fazem o jornalista um grande perigo à campanha.

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Quando tudo parecia razoável para Frank, Dunbar consegue uma foto comprometedora do pai de Francis, que fora de contexto parecia ser um membro do Ku Klux Klan, destruindo sua campanha quase por completo e até aí a temporada era morna e lenta. Durante uma retratação, o alucinado Goodwin atira no presidente, que fica ferido e acaba matando Edward Meechum. A grande virada da temporada começa nesse meio de ato e numa ausência temporária de Underwood a série se prova e se sustenta sem o ator principal por alguns episódios. Com alguns esquemas neo-ortodoxos, Doug Stamper consegue um fígado novo para seu chefe e Frank está de volta à ativa.

Pontos interessantes surgem, como as alucinações de Frank durante a internação, a influência de Claire em Petrov e o peso nas costas de Doug por ter salvo o presidente, usando a vida de alguém no lugar. Essas discussões são atuais e por isso tornam tudo tão fluido em House of Cards. A proximidade do espectador aumenta com o ator, que além de falar com o público, utiliza roupas, hobbies e referências de 2016! Como o jogo Agar.io, a preocupação das mídias ou o Twitter como arma de fogo política.

A manipulação de Frank nos seus aliados era gigantesca e a escolha da vice-presidente democrata tomou grande parte dessa quarta temporada, porém o destaque fica para Claire Underwood (Robin Wright) que arrebenta não só na atuação como nas eleições contra Cathy Durant para Vice-Presidente. Para conseguir isso, Claire vai ao extremo do personagem eticamente e continua inabalável em sua expressão séria. E com tudo resolvido, o próximo passo era só vencer o maior candidato republicano; Will Conway, que não convence no papel, mas parece ser alguém finalmente a altura de Francis.

A disputa entre o governador galã e o atual presidente, por mais que seja muito boa, é o ponto baixo da temporada, o ritmo acelerado de Robin Wright é trocado por um freio que é Conway. O personagem passa longe de conseguir parecer uma ameaça e tudo o que ele tem são os dados roubados dos usuários de um buscador na internet e que fomentou a discussão da invasão de privacidade como recentemente feito pela NSA. A série continua criticando atitudes e de forma inteligente não se perde nisso.

Assuntos como o Estado Islâmico, adultério, invasão de privacidade e a forma de abordar novas tecnologias como o Twitter ou a genial inserção do jogo indie Agar.io – aliás, aproveite também para jogar Agar.io em sua versão web – numa conversa são fenomenais numa série de alcance tão grande. Esse ato melhora muito próximo do final, porém derrapa em alguns milímetros, passando perto da perfeição de roteiro, adaptação e atuação.

A temporada termina numa ameaça terrorista, que retratou bem o sentimento dos americanos e transformou num objeto tridimensional a candidatura e os inimagináveis problemas nela inclusos. A série se destacou dessa vez não apenas pela excelência de Kevin Spacey, mas sim pela pluralidade de atores competentes, um roteiro ótimo e uma narrativa atual, que remete a um sentimento como a “nostalgia do presente”, que relembra fatos recentes de uma forma querida e como a internet, o big data, o Twitter e a mídia independente são produtos de uma época que para sempre será lembrada, assim também é o produto quase intocável que é House of Cards.

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