Quando as primeiras peças de divulgação de Titans foram liberadas, um forte aroma de Inumanos da Marvel dominou o ar. As caracterizações estavam dignas de uma feira de anime de Pindamonhangaba, o tom da série parecia não combinar com os Titans na forma que eles estão fixados no inconsciente popular e o ar pretensamente adulto (o que para os roteiristas significa sangue e palavrões, basicamente) soava artificial demais para ser comprado pelo público. E se isso não era problema suficiente, uma horda de nerds mimados resolveu xilicar contra a escalação de uma atriz negra para o papel de uma alienígena laranjada (infelizmente Donald Trump não pode aceitar o papel por conflitos de agenda). Ingredientes mais do que suficientes para um colossal fracasso.

Talvez aí esteja o grande mérito dessa publicidade. Jogar as expectativas em níveis subatômicos, a ponto de qualquer resultado que não cause uma extrema vergonha alheia ou algum nível de dor física no expectador, já seja considerado bom.

A trama de Titans gira em torno de Rachel Roth, a Ravena (Teagan Croft). O assassinato de sua mãe logo no episódio piloto a coloca sob custódia do Detetive Dick Grayson (Brenton Thwaites), que se vê obrigado a protege-la de um grupo de pessoas misteriosas que a persegue de maneira incessante. Na outra ponta da história, do outro lado do oceano, temos Kory Anders (Anna Diop), cuja única memória que possui é a da missão de encontrar urgentemente, mesmo sem saber por quê ou para que, uma certa garota de quem tem a foto: Rachel Roth. Quando esses pontos se cruzam, os Titans passam a tentar resolver os mistérios dos perseguidores de Rachel e do passado de Kory em conjunto (ou quase isso).

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Essa sinopse simples poderia descrever apenas o piloto, tendo em vista que é uma trama de fácil resolução que sustentaria dois ou três episódios com tranquilidade. Mas não, ela se estende pelos 11 episódios dessa primeira temporada, servindo para expor o principal problema da série até então. Titans tem extrema dificuldade para desenvolver a sua história, por um misto de incompetência de quem a escreve, que decidiu adicionar e desenvolver personagens periféricos que só terão relevância mais adiante, e também do contexto que envolve esse projeto, já que a série foi desenvolvida como o abre alas do serviço de streaming exclusivo da DC Comics (disponível apenas nos Estados Unidos, por enquanto), e por isso se viu obrigada a não apenas se estabelecer, como também servir de hub para outras produções vindouras do serviço.

O ponto negativo nessa situação toda foi uma história truncada, que caminhou muito lentamente e com vários desvios, rumo a um desfecho que não foi realmente um desfecho. O ponto positivo é que em todas essas curvas, descobrimos personagens cativantes e bem desenvolvidos. A Patrulha do Destino, apresentada no episódio quatro, tem carisma e um clima de família heroica disfuncional que pode funcionar muito bem em sua própria série (que nem estreou e já tem duas temporadas garantidas), mas não precisava ocupar um capítulo todo da série, principalmente naquela altura da história.

Já temos praticamente contada a história de origem da dupla Columba e Rapina, dois vigilantes estabelecidos no universo da série. E é uma boa história, os personagens são complexos e bem trabalhados, mas dois episódios inteiros dedicados a seu sub plot foi um grande exagero. E ainda temos as participações de Jason Todd e Donna Troy, personagens grandes, mas que não precisavam ter aparecido agora, e que ocupam demais do tempo que era para ser usado no desenvolvimento do quarteto principal, que por muitas vezes fica escanteado dentro da própria série.

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Mas temos coisas boas também, se o background do quarteto principal (com exceção de Dick Grayson), perde muito espaço para os coadjuvantes de luxo da série, pelo menos a interação entre eles funciona muito bem, algo que me surpreende, já que a alteração drástica na idade dos personagens tinha tudo para prejudicar essa dinâmica. A personalidade forte e explosiva de Kory, a frieza e o deslocamento de Dick, o senso de humor de Gar e a curiosa mistura entre a inocência e o sinistro de Rachel, são ingredientes que combinam estranhamente bem, gerando o senso de grupo que a gente espera em uma série dos Titans.

Outro ponto forte é a ação. Tem sangue, gargantas cortadas, meliantes com a cara arrastada na parede, ossos quebrados, pessoas sendo queimadas vivas e um sem número de demonstrações gráficas de violência. Não dá para dizer que todas são justificáveis e funcionam (bem como as mortes na série), mas a maioria sim. Dá para sentir o cuidado e a dedicação nas coreografias de luta, mesmo que a maioria delas aconteça no escuro e mesmo o uso de CGI nessas cenas, ainda que claramente pobre, não prejudica sua credibilidade. As caracterizações ainda são um problema, por um lado é sempre bom quando uma série de super herói se assume, com suas capas e collants, mas é preciso ter cuidado para não ficar com cara de um cosplay barato. Nesse sentido apenas Robin, Columba e Rapina se salvam.

O elenco é competente em sua maioria, com destaques positivos para Anna Diop numa interpretação altiva, sexy, mas com sua dose de confusão quando necessário; e Alan Ritchson como Rapina, um brutamontes agressivo que de forma convincente deixa escapar seus traumas e fragilidades. O elo fraco é Teagan Croft, falta alcance para a jovem atriz trabalhar as várias personalidades de Ravena.

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Enfim, Titans acaba sendo competente enquanto trata da relação entre seus personagens, carismáticos e complexos, mas peca muito ao desenvolver uma narrativa a ser seguida por eles. Não se priva de expor o universo em que está, onde Batman, Mulher Maravilha e Superman existem e atuam, mas perde muito tempo com pílulas e citações desse universo. Apesar de tudo, faz uma transição entre o sombrio e o heroico muito melhor do que a Warner fez entre Batman v Superman e Liga da Justiça, por exemplo. Há bastante potencial em Titans, desde que em sua segunda temporada ela deixe de lado a vontade de ser um aglomerado de episódios piloto e passe a focar em seus próprios objetivos.

Titans chega à Netflix em 11 de janeiro de 2019.

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Avaliação.
Bom

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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