Não é difícil identificar os fatores que transformaram Stranger Things num fenômeno cultural tão acachapante. Sua primeira temporada foi feita sob medida para abocanhar corações e mentes dos espectadores mais diversos, mesclando uma história intrigante, personagens adoráveis que tinham ótima interação, fluidez narrativa e um clima de nostalgia capaz de fisgar até mesmo pessoas que sequer viveram a época ou as situações retratadas na série. Tudo isso envolto por uma teia de referências e homenagens que fazem nossa memória afetiva pulsar. Mas junto do sucesso veio a pressão, seriam os irmãos Ross e Matt Duffer, criadores do show, capazes de nos entregar outra experiência tão divertida e emocional, expandindo os horizontes e provando por a+b que o sucesso estrondoso não foi obra do acaso?

Infelizmente, não.

Strangers Things 2, como se convencionou chamar, começa aproximadamente um ano após os eventos da primeira temporada, em uma cena que parece – e posteriormente se prova – meio deslocada do que foi construído até então. Jovens delinquentes em fuga após cometerem um delito e o vislumbre de uma nova garota com habilidades especiais. Cena que ocupa os primeiros quatro minutos do episódio um. Visto isso, voltamos a Hawkins, a não mais tão pacata cidade, onde vemos os efeitos dos acontecimentos sombrios do ano anterior agindo nos personagens. Will sofre com crises envolvendo lembranças e flashs do mundo invertido. Mike tenta lidar com a falta que sente de Eleven. Lucas e Dustin encaram uma leve disputa por uma paixonite em comum, uma garota que acaba de se mudar pra cidade.

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E já que falamos da garota que acaba de chegar a cidade, podemos começar a listar os problemas dessa temporada. Um dos maiores méritos de Stranger Things na temporada anterior foi trabalhar bem com familiaridades. Os arquétipos de personagem repetidos exaustivamente desde os anos 80 receberam um bom tratamento, mesmo que sem tanta profundidade. E nessa temporada, os irmãos Duffer sequer se esforçaram em trazer arquétipos novos, eles apenas substituíram os personagens. Steve, o bad boy da temporada anterior, alcançou um tipo de “redenção” e foi substituído por Billy. Eleven, a garota “diferente” que foi abraçada pelo grupo de amigos foi se aventurar em outro núcleo, foi trocada por Max. Mudaram-se os nomes, mas o esqueleto é o mesmo. E esses personagens são apenas objetos pro roteiro, já que nenhum deles ganha desenvolvimento no decorrer dos episódios.

Outro erro foi particionar demais os arcos. Enquanto na temporada anterior tínhamos três arcos principais, o grupo das crianças, o trio Steve-Nancy-Jonathan e a dupla Joyce e Hopper, que convergiram no final, nessa temporada temos no mínimo seis mini arcos que não tem nada de relevante para contar. O grupo e a dinâmica entre as crianças, ponto forte do ano um, foi desmantelado, jogando um pra cada lado e tirando toda a importância das ações de cada um. Mike, até então protagonista, foi escanteado e virou nada mais que um papagaio de pirata de Joyce, na busca de ajudar o garoto Will. Esse excesso de mini-histórias acarretou na total quebra de ritmo da temporada. A fluidez que nos fez encarar Stranger Things como “um filme de oito horas” morreu. O excesso de pontos para focar fez a história ficar travada, cinco episódios se passaram e a trama simplesmente não saiu do lugar. E os produtores perceberam isso, tanto que apelaram para um artificio pouco utilizado até então, ao fim de cada capítulo um cliffhanger, para não deixar a atenção se perder e deixando a experiência, antes fluída, totalmente episódica.

Stranger Things

Falemos de dois “personagens” inseridos nessa temporada. E as aspas nos personagens é por que eles não são personagens de fato, não tem profundidade ou desenvolvimento para tal. Eles são os famosos plot devices, que foram adicionados da forma mais safada possível. Bob Newby, que também atende a cota de arquétipos dos anos 80, o gordinho nerd bonachão que em algum momento vai se mostrar mais bad ass do que o esperado. Ele aparece do nada e desde o principio sabemos seu destino, sacrificar-se em um momento para que não se queime um protagonista. Dito e feito. A segunda é Kali, a irmã perdida, que ganha um episódio inteiro apenas para exercer sua função: mostrar a Eleven como canalizar seu poder. Apesar dos outros ganchos deixados, essa é sua função primordial.

Há outros pontos bastante questionáveis sobre essa temporada, por exemplo, como Nancy sabia que ao marcar um encontro com os pais da Barbs seria levada para o QG do mal e poderia gravar uma confissão? Por que o jornalista conspirólogo saiu da cidade no meio da investigação? O quão estranha é a relação de cárcere privado a qual Hopper submete Eleven? E não me venha falar de proteção, é só ver a reação dele ao saber que Eleven foi dar um passeio pra perceber que não é saudável a situação em que ela se encontra. Como a garota que mal sabe ver as horas vira caroneira e vai parar em outro estado sozinha? De onde surgiu a ligação maternal de Eleven? Por que os meninos não brincam mais, onde está o RPG (além dos comentários forçadíssimos no último episódio), os passeios de bike?

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Os dois últimos episódios foram um pouco superiores aos demais, mesmo que de forma atabalhoada. Por que no fundo, os problemas que se construíram no início da temporada já vieram com uma sugestão de solução. E no fim, a solução foi exatamente aquela projetada no inicio. Os cinco episódios entre os dois primeiros e os dois últimos só serviram pra fazer os personagens rodarem por aí, sem grandes evoluções para a trama e nem para si mesmos. Não houve reviravolta, ou um novo obstáculo. O enredo seguiu exatamente o que se esperava dele, num molde bem parecido do que ocorreu no ano anterior, mas sem o fator novidade. E fica a pergunta, no que a história avançou de fato? A segunda temporada termina com os personagens em situação praticamente igual a anterior.

As referencias ainda estão lá, assim como o carisma do elenco, mas a impressão que ficou é que essa temporada só foi feita para não deixar as crianças espicharem demais, por que não havia nada de novo para mostrar. E também a conclusão de que é um padrão as séries do Netflix terem o dobro de episódios que o necessário. Quero ser otimista e pensar que essa temporada foi um ponto fora da curva, mas a verdade é que os Irmãos Duffer não parecem saber o que fazer com a série. E no momento também não sei o que fazer em relação a ela.

Netflix, you got to let me know

Should I stay or should I go?  

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Vinicius Salazar

Um estudante de história de 23 anos que ama filmes, bons e ruins, e acha que tem algo a dizer sobre eles.

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