Rainha do Mundo (Queen of Earth – 2015)

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Alex Ross Perry nos draga para um solitário e sombrio lugar chamado “ser humano” nesse poderoso e desconfortável pseudo-thriller Rainha do Mundo (Queen of Earth, 2015), “ser humano” aqui como um lugar pois é dentro de uma (ou duas) mentes que essa obra transcorre e estuda aquilo de mais temível e perturbador que o ser humano tem, e faz tal coisa sem medo de mostrar pessoas em estado deplorável e como isso é assustadoramente próximo.

Você cresceu em uma bolha e quando essa bolha estourou, esperou que todos ficassem ao seu redor sentindo pena de você.

Vindo do recente e ótimo Cala a Boca Phillip (Listen Up Phillip, 2014), Alex Ross Perry escreve e dirige Rainha do Mundo, uma estória de duas amigas que tiveram caminhos diferentes e que se reúnem pela segunda vez em uma casa de campo para umas “férias”, com uma sobriedade ímpar e difícil em suas decisões, principalmente quando se trata de filmes que adentram no psicológico, trazendo uma tristeza relacionável e uma decadência bem orquestrada em um filme que poderia se perder em receitas e impactos baratos. O tempo todo Alex perturba o espectador com flashbacks trazidos por lugares que remetem à memórias da primeira vez naquela casa de campo, mostrando que a fragilidade – tanto da protagonista Catherine (Elisabeth Moss, de Cala a Boca Phillip e Complicações do Amor) quanto de sua amiga Virginia (Katherine Waterston, de Vício Inerente e Steve Jobs) – já vem de longa data. Ross Perry faz sua câmera tremer e ir de encontro ao rosto de quem filma em cenas mais sombrias e consegue estabilidade em pontos chave dos flashbacks, rimando com a trilha minimalista e descompassada de Keegan DeWitt, dando moldura a situação das personagens.

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A obra, que se molda muito mais como um estudo psicológico do que como uma estória, questiona o resultado de ter-se construído algo sobre bases frágeis e o impacto e o senso de deslocamento de de repente ver tudo ruir e se encontrar na situação da qual nos “protegemos” através dessa construção, vendo-nos como aquilo que então reprovávamos. O passado perambula e teima em voltar ciclicamente, como que se fundindo com o presente, através de dúvidas que levam a relacionamentos destrutivos (ou dispensáveis) e que fragilizam uma amizade e opções de vida tomadas, levando possivelmente ao descenso da baixa autoestima e a falta do amor próprio que por fim acaba por consumir e colocar certezas mais destruidoras do que as dúvidas. Sentimos a dor de Catherine e vemos sua queda gradativa a olho nu até o fundo do poço perturbador que conclui a sucessão de imagens inquietantes do filme com ações e figuras de existência duvidosa.

Em questão de atuações, Katherine Waterston incomoda, não propositalmente, mas por que sua atuação é medíocre. Sua amplitude interpretativa resume-se à caretas e repetitivos olhares tristes (e após ter visto uma quantidade considerável de seus filmes ela começa a aparecer como mais do mesmo em todos eles). Sorte dela – e nossa – que Elisabeth Moss está memorável. Sua interpretação chega a ser assustadora em profundidade e veracidade e absolutamente tudo o que faz em tela é digno de apreciação: é potente quando necessário, apática quando necessário e tudo sem parecer artificial. Suas cenas de “fundo do poço” e catarse no final do longa – quando conclui seu ciclo –  são exuberantes e gritam talento.

Rainha da Terra vale muito para quem está disposto a se aventurar nos sombrios confins da mente humana. Não é um filme fácil e só entrega recompensas para quem realmente procurar.

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