Se você é um espectador, um leitor, ou um gamer, já deve ter se deparado com a expressão “a quarta parede”, ou “quebra da quarta parede”. Mas você sabe o que isso significa? Se não, continue lendo para descobrir, se sim, continue lendo para conhecer filmes, séries, livros, quadrinhos e games que fazem uso dessa técnica.

De onde vem e o que é a Quarta Parede?

A origem desse termo é incerta, mas acredita-se que tenha nascido no Século XVII, e que tenha sido criada pelo filósofo francês Denis Diderot, que teria dito: “Então, caso façais uma composição, ou caso representeis, pensai no espectador apenas como se este não existisse. Imaginai, na borda do teatro, uma enorme parede que vos separe da plateia; representai como se a cortina não se levantasse”.

Imagine-se no palco abaixo, de frente para a plateia, atrás de você existe uma parede, a 1ª. Nas laterais existem mais duas paredes, a 2ª e a 3ª. A parede que está a sua frente não existe fisicamente, mas ela está ali, separando o espectador da ficção que acontece no palco, essa parede invisível é a quarta, e é ela que mantém ativa a suspensão da descrença do público.

Os tipos de Quarta Parede

Quarta Parede completamente sólida: Acontece quando os personagens (sempre personagens, nunca atores) acreditam estar no mundo real.

Quarta parede visível: Acontecem quando os personagens agem como personagens, mas não sabem se há um público assistindo.

Quarta parede semipermeável: Há um narrador na história, mas ele não expressa seu ponto de vista. Pode ser também quando o autor interage com os personagens.

Quarta parede inexistente ou Quarta Parede Quebrada: o personagem tem a consciência de que está em algo ficcional, e interage com o leitor e com o autor.

Derrubar ou Quebrar a quarta parede, como assim?

A quebra da quarta parede acontece quando o personagem se dirige á plateia, ou quando ele percebe que aquilo que ele está fazendo não é real, ou seja, quando o núcleo da trama que você apenas observava, descobre a sua presença e interage com você.

Esse recurso é utilizado de várias formas e para vários fins, seja para envolver o espectador na história, incita-lo a encarar a ficção de outra forma ou até para anular a suspensão de descrença. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht, dizia que derrubar a quarta parede encorajaria a plateia a ver sua peça de maneira mais crítica, minimizando a alienação.

E aí, capisce? Bom, se você pegou o espírito da coisa, agora vamos conhecer as principais obras da cultura pop que quebram a tal da quarta parede.

A quebra da quarta parede no Cinema

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Dezenas de filmes quebram a quarta parede, e isso surte diversos efeitos na percepção que existe sobre eles, então vamos começar com o pé na porta e falar de Violência Gratuita, tanto da versão original quanto do remake americano, ambos de Michal Haneke.

Violência Gratuita

Aqui a técnica transforma o que seria um simples thriller sobre psicopatas em uma reflexão sobre a maneira como a sociedade lida com a violência. A trama acompanha uma família, que decide passar as férias em uma casa de campo, até ser surpreendida por dois jovens sádicos que os envolvem em jogos de tortura física e psicológica.

É claro que você já sabe o que esperar de um filme com essa premissa, mas Haneke não se limita a mostrar a violência física gratuita graficamente, ele também transforma a psicológica em uma questão que permeia uma das grandes discussões da sociedade moderna: afinal, por qual motivo público quer assistir filmes de tal temática? Por que o público procura a violência? O tema provoca satisfação a ponto de ser transformado em esporte e entretimento, anulando sua face verdadeira?

E é aí que entramos no tema do artigo, já que os protagonistas rompem a quarta parede para constranger o público com essa questão, questionando mais de uma vez se o espectador está gostando do que está vendo. É ótimo quando esse tipo de questionamento é posto ao lado de uma boa obra, por isso eu recomendo que você assista o filme ( de preferência, o original).

Monty Python em busca do Cálice Sagrado

Eu estava esperando para falar de Monty Phython em algum momento, eis a oportunidade. Em seu longa metragem de estreia, lá em 1975, o sexteto britânico fez ótimo uso da quebra da quarta parede, mas diferente do exemplo anterior, não havia uma grande mensagem a ser passada, foi tudo em nome da zueira.

A trama segue as aventuras do Rei Arthur, em sua missão de recrutamento dos Cavaleiros da Távola Redonda, e posteriormente, na missão do grupo em busca do Santo Graal. A função cômica da quebra é bem vista em várias cenas do longa, algumas antológicas como a morte do animador da Legendária Besta de Aaaaarrrrrrggghhh, ou quando os policiais contemporâneos interrompem a batalha final dos cavaleiros de Arthur.

Sem falar no uso de cocos e mímica no lugar dos cavalos, das maquetes no lugar de castelos, que inclusive geram discussões dentro do próprio filme, que questionam como cocos, típicos de regiões tropicais, teriam ido parar na Inglaterra e, quando os cavaleiros admiram a beleza de Camelot, e Patsy ironiza o fato de ser “só uma maquete”, sendo repreendido por Arthur.

Temos ainda Dingo (ou Carol Cleveland), que questiona para a câmera a qualidade de sua cena no Castelo de Anthrax. Além de menções feitas a Suécia durante as legendas na abertura, mas que são interrompidas quando “os responsáveis pela legenda são demitidos”. Existem outras inúmeras cenas do tipo no filme, e além de ter sua importância como piada, elas também evidenciam os poucos recursos com que ele foi feito. Sem dúvida, uma das melhore comédias britânicas de todos os tempos, e que sem dúvida merece ser visto.

Curtindo a vida adoidado

Um clássico adolescente que também rompe a parede, e que aqui surte um outro tipo de efeito, ele não passa exatamente uma mensagem, nem está ali para provocar risos e um efeito non sense, nem mesmo para lembrar o público que trata-se de uma ficção. A sensação passada toda vez que Ferris Bueller dirige-se a plateia para contar sobre sua vida e seu dia, é a de cumplicidade e empatia do personagem com o público, agregando á experiência um sentimento de compartilhamento de sensações e situações.

O fato de Ferris Bueller e seu dia de folga significarem tanto na cultura pop até hoje mostram que a estratégia utilizada pelo diretor John Hughes funcionou muito bem. Não que eu ache que alguém ainda não viu esse filme, mas mesmo assim, fica aí a dica, vejam Curtindo a Vida Adoidado.

Pra não tornar esse artigo maior do que ele já vai ficar, vou apenas citar uma série de bons filmes (ou não) que se enquadram no tema, para podermos virar a página e falar das Séries de TV, são eles Clube da Luta, Psicose, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Crepúsculo dos Deuses, S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço, Alta Fidelidade e O Império do Besteirol Contra-Ataca, entre outros.

Vamos falar de séries, então.

A quebra da quarta parede nas séries

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House of Lies

House of Lies é uma série da qual, infelizmente, eu vi poucos episódios, porém, esses poucos que vi me conquistaram. Ela é uma comédia de humor negro baseada no livro House of Lies: How Management Consultants Steal Your Watch and Then Tell You the Time, escrito por Martin Kihn.

O show acompanha uma empresa de consultoria liderada por Marty Kaan, interpretado pelo ótimo Don Cheadle, o chefe que faz de tudo para atender os pedidos de seus clientes, mesmo que isso exija atitudes pouco ortodoxas. A parede aqui é derrubada pelo próprio Don, e é usada como forma de nos inteirar no dia a dia da empresa, além da explicação de alguns negócios específicos da área de consultoria.

Bom, é isso que eu posso dizer sobre House of Lies por hoje, quando eu terminar de ver quem sabe rola uma resenha por aqui. Enquanto isso vamos falar de uma outra casa.

House of Cards

O fantástico thriller político da Netflix, estrelado pelo fantástico Kevin Spacey também faz um ótimo uso da quebra da quarta parede, e ele já chega jogando na nossa cara no 1° episódio da primeira temporada, quando ele te explica os tipos de dor que existem. Tal qual Marty Kaan, de House of Lies, Frank Underwood também utiliza a quebra como forma de ajudar o espectador a entender as trocas de favores entre os congressistas, quase como: “Bem vindo a politicagem ianque, eu serei o seu guia.”

Mas não é só isso, ela também nos permite conhecer um pouco mais da vida e das percepções de Frank, causando uma certa empatia com ele, e ao mesmo tempo gerando a controvérsia ao nos fazer discordar (ou não) de suas atitudes monstruosas. Bom, se a tática já é bacana por si só, quando é feita de maneira competente e com um ator do calibre de Kevin Spacey, é imperdível.

Sai de Baixo

Sim, uma sitcom brasileira, ressalvas ao quão datado e fora de contexto o programa está hoje, Sai de Baixo trazia um humor negro que talvez não sobrevivesse ao politicamente correto de hoje. O bom elenco e as boas piadas eram belos atrativos, mas o show brilhava quando o roteiro era deixado de lado e a as piadas internas e pirações dos atores tomavam conta do palco. A quarta parede era quebrada nesses pontos, e quando eles “conversavam” com o público presente na gravação, principalmente fazendo referência aos outros trabalhos dos colegas de elenco na Rede Globo, ou citando eventos contemporâneos como politica e futebol. Por esses motivos, eu não poderia deixar de citar aqui.

A quebra da quarta parede nos Games

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Vale dizer que eu estou meio afastado do mundo dos games há algum tempo, então não saberei dar exemplos mais recentes da prática, mas falarei de uma franquia que é atemporal, principalmente por estar presente nos consoles até hoje, Metal Gear Solid.

Antes vale dizer que existe uma certa discussão no quesito “quarta parede” nos games, principalmente por eles serem uma forma de entretenimento passiva, onde o espectador sabe que está diante de uma obra ficcional, já que o desenrolar da trama dependem das ações do jogador, o que já seria uma forma de quebrar a quarta parede.

Mas ressalvas a parte, vamos falar de Metal Gear Solid. Se você jogou o saudoso PS1, provavelmente passou pelo Metal Gear Solid do console, e é por ele que começaremos com os exemplos, mais especificamente na luta contra o vilão chamado Psycho Mantis, que consegue prever as ações que realizamos com Solid Snake, além de brincar com os saves do nosso memory card, citando por exemplo o jogo Castlevania, quando ele nos pergunta: “You like Castlevania, don’t you?”.

No segundo capítulo da franquia, o protagonista Raiden é chamado pelo Colonel Campbell no comunicador, que diz: “A sua missão falhou… desligue esse videogame agora mesmo!”. E quando o questionamos ele rebate: “Não se preocupe, isto é só um jogo!”.

Em Metal Gear Solid 3: Snake Eater, existe um momento em que um soldado te diz: “Nem pense em usar o auto-fire ou ele descobrirá”, referenciando a “trapaça” feita nos consoles antigos, quando os jogadores usavam um botão turbo para burlar a necessidade de pressionar um outro botão freneticamente.

No mesmo jogo existe um diálogo que faz referência ao filme do Godzilla, dizendo que no futuro um novo filme do monstro japonês seria feito pelos americanos, mas não seria melhor do que o clássico de 1954, com o detalhe de que essa história se passa na década de 60.

Segundo a minha pesquisa, existem uma dezena de jogos que “conversam” com o jogador, como quando você deixa de controlar o game por alguns minutos, e o narrador ou o protagonista perguntam se você não vai fazer nada.Ou quando algo é dito por eles e eles olham para você. Entre esses jogos posso citar The Bard’s Tale, Jak 3, Max Payne, The Legend of Zelda: Phantom Hourglass, Chaos on Deponia e Kid Icarus: Uprising. Se você conhecer outros exemplos, deixe aí nos comentários.

A quebra da quarta parede nos Quadrinhos

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Nos quadrinhos existem vários exemplos de quebra de quarta parede, geralmente personagens específicos tem essa prática presente em suas histórias, uma delas é a Mulher-Hulk, principalmente quando ela esteve sob a baqueta de John Byrne, que chegava a usar termos de produção de roteiros na trama, adicionando um tom irônico nas revistas. Outro grande nome das hqs que se utilizou muito bem disso foi Grant Morrison, que introduziu o conceito nas a histórias do Homem-Animal, da DC, chegando a criar uma versão ficcional de si mesmo, e confrontando-a com o personagem.

A Turma da Mônica também quebra a quarta parede diversas vezes, seja com Mauricio de Souza entrando nas histórias, ou com os personagens conversando com os roteiristas e quadrinistas.

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Mas sem dúvida, o maior representante desse ato nos quadrinhos é o mercenário Deadpool, que tem noção de que está em uma hq, e faz graça com isso, além de conversar com o leitor, fazendo várias piadinhas sarcásticas. Em seu jogo de videogame ele também faz isso, inclusive fazendo piada com seu próprio dublador. No tal filme que pode ser que saia, pode ser que não, o ator Ryan Reynolds disse que também terá.

A quebra da quarta parede nos Livros

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Os livros também quebram a quarta parede, com menos frequência é verdade (pelo menos pelo que eu sei). Um exemplo famoso acontece na Divina Comédia, no livro do Purgatório, quando Dante se dirige diretamente ao leitor. Não me lembro de outros grandes exemplos, por isso peço a colaboração de vocês para deixar as dicas aí nos comentários.

Dentro de todas essas mídias existem outros tipos de quarta parede e outras formas de quebra, como por exemplo em filmes como Mais Estranho que a Ficção ou O Show de Truman, onde elas são quebradas dentro da trama, e existe uma obra ficcional dentro de outra obra ficcional.

Bom, para finalizar esse artigo que já está maior do que deveria, vou deixar uma série de vídeos com a quebra da quarta parede em filmes, séries animações e etc. Esperam que vocês tenham gostado do artigo, deixem dicas de obras assim, além da sua importante opinião sobre o trabalho que estamos fazendo aqui.

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  • Felipe Mattos

    Muito obrigado, realmente útil, tava com essa duvida mas queria um texto que explicasse e desse exemplos

  • Karine R.

    Na literatura tem Machado de Assis, o exemplo mais básico que posso dar é com Memórias Póstumas, esse movimento de crítica é feito pelo defunto autor, no livro temos então narrativa e teoria da narrativa, é boníssimo.

  • Madex

    No livro o mundo de Sofia há quebra da quarta parede.

  • Leonardo Freire

    Às vezes este recurso também é utilizado em novelas, A Indomada por exemplo, embora que de maneira sutil, quando os personagens falam que antes do fim daquela história, precisam fazer algo importante.