Project Blue Book (2019 – History Channel) | Um Arquivo X na década de 50

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Faz mais de vinte e cinco anos que vimos Fox Mulder e Dana Scully apontaram suas lanterninhas para a escuridão pela primeira vez. Desde então nenhuma outra série conseguiu trabalhar o encanto pelo desconhecido de forma tão empolgante e influente na cultura pop, e olha que as tentativas de replicar a essência de Arquivo X não foram poucas. Project Blue Book é, muito claramente, mais uma dessas tentativas, mas desta vez baseado em acontecimentos de verdade.

A verdade que… bem, vocês sabem onde está.

O Projeto Blue Book (ou Projeto Livro Azul, já que não faz sentido traduzir apenas um terço do nome), foi um dos vários esforços da Força Aérea Americana na investigação de O.V.N.I.s – Objetos Voadores não Identificados. Ele começou nos idos 1952 e foi encerrado oficialmente em 1970, tendo lidado com mais de doze mil indícios de avistamento ou interação de americanos com os supostos objetos. A esmagadora maioria dos casos foi concluída como causados por fenômenos naturais, envolvendo desde balões meteorológicos e pedaços de aviões, até raios ou estrelas. Mas seis por cento desses mais de doze mil, setecentos e um para ser mais preciso, foram catalogados oficialmente como inexplicáveis.

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Project Blue Book é a nova série de ficção do History Channel, e conta sobre essas investigações nos apresentando Josef Allen Hynek (Aidan Gillen), um professor de astrofísica que fora convidado pela Força Aérea para, ao lado do Capitão Michael Quinn (Michael Malarkey), esclarecer de forma oficial os incidentes que estão causando histeria entre os cidadãos americanos. Motivado por seus próprios interesses, que incluem o reconhecimento público e o financiamento de uma pesquisa paralela, ele aceita a missão de emitir os seus pareceres a respeito dos misteriosos casos.

A verdade é que não há muito há se dizer sobre Project Blue Book além de chamá-lo de “Arquivo X na década de 50”. A dinâmica da dupla de investigadores com ideias e intenções distintas, a conspiração governamental, o desenvolvimento do mistério aparentemente episódico, tudo nos faz pensar em Arquivo X. A sútil diferença é que a dupla de protagonistas não ocupa exatamente os papeis de Mulder e Scully aqui, pois o Professor Hynek consegue os contemplar os estilos e conflitos de ambos. É um cético homem da ciência, como Scully, mas não é irredutível quando se depara com o insólito. Assim como Mulder, está aberto ao inexplicável. Só não se contenta em acreditar, pois prefere saber.

É verdade que a época em que Project Blue Book se passa adiciona automaticamente camadas e subtextos que Arquivo X não teve acesso, como a ressaca de uma grande guerra, a ameaça da Guerra Fria e a corrida espacial. E essas camadas são úteis para uma narrativa que se apoia no conspiracionismo e no senso de desconfiança para com as autoridades. Além é claro de a suspensão da descrença funcionar melhor em uma época onde o mundo parecia muito maior e mais misterioso do que hoje em dia.

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Mas como você já deve ter percebido nesta resenha, Project Blue Book acaba sofrendo com a falta de uma voz própria. Nem o charme dos anos 50, muito bem reconstruído no visual da série, nem a curiosidade sobre os eventos reais descritos com muita licença poética, é verdade, nem a ótima atuação de Aidan Gillen e participação do competente Neal McDonough, são capazes de fornecer a série algo que a diferencie das dezenas de outras tentativas de emular Arquivo X. Um texto repleto de clichês e um andamento arrastado do episódio piloto também não facilitam a vida desse projeto.

E não deixa de ser curioso que o canal que está há 15 anos tratando como realidade a ficção defendida por Giorgio Tsoukalos, de que os alienígenas são responsáveis pela construção das Pirâmides, do Stonehenge e da Arena Corinthians, agora trata com verniz de ficção os fatos do Projeto Blue Book. Pois é, não se trata de uma série documental, é a boa e velha (nesse caso não tão boa, mas bastante velha) ficção cientifica. E não há problema algum nisso, afinal todo mundo tem o direito de expor suas próprias explicações para algo que o governo chamou de inexplicável, mas eu preferiria que essas versões fossem apresentadas de forma mais original.

Se você é um órfão de Arquivo X, talvez Project Blue Book funcione bem para você.

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