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“Harry Potter para Adultos” e “Uma mistura de Crônicas de Nárnia com Harry Potter” são algumas das frases que sempre vinham à tona quando se falava da saga literária The Magicians, escrita por Lev Grossman. Convenhamos que são associações que trazem certa responsabilidade e que podem significar tanto coisas incríveis, como terríveis. Sucesso comercial – provavelmente por conta do grande número de órfãos que as sagas supracitadas deixaram – mas que não teve uma recepção muito carinhosa por parte da crítica, a série de livros mesmo assim trilhou o caminho natural para qualquer obra literária moderna: a adaptação.

Essa foi trazida em forma de série pelo canal SyFy, que animado com a audiência dos primeiros episódios e com o sucesso de suas duas adaptações mais recentes – The Expanse e 12 Monkeys – já renovou o show para uma segunda temporada que deve ir ao ar em 2017. The Magicians acompanha Quentin Coldwater (Jason Ralph), um jovem com séria inaptidão social que se refugia dos horrores da vida real na literatura fantástica. Quentin sempre foi apaixonado por magia e até hoje alimenta a esperança de que as aventuras que sempre leu e amou possam ser reais. Sonho que se torna realidade no dia de sua entrevista para Yale, quando junto de sua melhor amiga Julia (Stella Maeve), é levado para Brakebills, uma universidade secreta especializada na formação de magos.

Os episódios iniciais estabeleceram de maneira ágil um pouco da mitologia do universo criado por Lev Grossman, um universo referencial e estruturado de maneira bastante familiar, para quem, como eu, não conhece a saga literária, fica fácil associar as características de criação de mundo, de classes mágicas e até de plot principal com obras mais famosas e cultuadas. Essa estrutura familiar e referencial, porém, em nenhum momento se transforma em defeito, pelo contrário, se trabalhada de maneira inteligente, The Magicians pode deixar de ser tratada como caça-níquel de órfãos de Harry Potter, para virar uma espécie de continuação espiritual da saga de JK Rowling (guardadas as devidas proporções, é claro), pois a aura de encantamento e magia permanece forte nessa série, mas seus temas e interesses realmente podem se mostrar mais maduros e sombrios.

The Magicians - Season 1

Seu protagonista segue o que parece ser o novo molde a ser utilizado em séries de TV. Depois de décadas de heróis perfeitos e unidimensionais, um período focado em protagonistas falhos e anti-heróis e uma safra mais recente que usava o próprio vilão como protagonista, o herói do momento é o sujeito deslocado, com desordens psicológicas sérias e a sensação de não pertencimento ao mundo real. É um tipo facilmente identificável em um mundo com cada vez mais artificialidade em suas relações, com muito mais desajustes mentais e com doses cavalares de antidepressivos se tornando um lugar comum para o cidadão médio. É uma versão menos hardcore do Elliot de Mr. Robot, com um pouco menos de talento e desenvolvimento, na verdade. Jason Ralph vem se esforçando, mas o problema é que o roteiro tem dado pouca atenção ao seu personagem.

As personagens femininas vêm roubando a cena nesses primeiros episódios, Alice (Olivia Taylor Dudley), com seu passado misterioso e sua busca pelo irmão perdido e Julia (Stella Maeve), lidando com sua descoberta e com a rejeição, trazem dilemas e plots muito mais interessantes do que o do próprio Q. O show apresenta coadjuvantes interessantes também, Arjun Gupta como Penny, que aparentemente deve ganhar ainda mais importância no decorrer da temporada, e Hale Appleman como o veterano Elliot são responsáveis por alguns dos melhores momentos da série até então.

A parte técnica da série merece destaque, desde os efeitos especiais bem utilizados, até o figurino e a trilha sonora, que são coerentes e bem escolhidos. A fotografia também faz um trabalho interessante, ao contrapor a frieza do cinza que contorna as cenas no mundo real, com as cores vibrantes e o tom esfumaçado que vemos nos ambientes mágicos. Uma escolha inteligente e que também serve como apoio a construção da personagem de Julia, que traz o cinza do mundo real para seu olhar cheio de frustração.

Enfim, os três primeiros episódios de The Magicians apresentam um universo promissor e uma trama com muito potencial, mesmo esbarrando em alguns problemas de ritmo e falhas no desenvolvimento de um ou outro personagem. Tem uma aura nostálgica, mas tem espaço para se tornar bem mais do que um fan service para órfãos de outra saga. Merece uma chance, especialmente daqueles que ainda esperam pela chegada de sua carta de Hogwarts, quem sabe não rola uma calourada nos pátios de Brakebills.

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