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Pablo Larraín (No, O Clube) aborda no seu cinema político essencialmente o período conturbado da ditadura chilena através de histórias de cidadãos comuns em meio ao tormento. Faz isso com extrema eficácia em obras como No (2012), ao mostrar pelos olhos de publicitários aquela época e vale-se de drama e estética primorosa. Antes, porém, explorou o suspense com Post Mortem (2010), contando a estória de um funcionário de um necrotério, Mario Cornejo (Alfredo Castro) que se afeiçoa pela dançarina e sua vizinha Nancy Puelma (Antonia Zegers). Confuso e recortado, porém, é o resultado final, apesar da ótima premissa.

“Parabéns Senhor Cornejo, agora serve ao exército do Chile.”

Post Mortem é lento. Isso não é, em geral, um defeito. O problema dessa lentidão se assemelha ao problema de um filme que é todo frenético: não há uma evolução aparente, e essa evolução, esse crescimento da trama, do suspense, é essencial para tornar a história comovente. A primeira metade do longa é recheada de sequências e acontecimentos insignificantes, que nada acrescem à trama. O roteiro de Larraín, Eliseo Altunaga e Mateo Iribarren é de condução arrastada, o que gera uma falta de empatia para com o protagonista, que apesar de ter angústias relacionáveis – se diz “somente um funcionário”, por exemplo – torna-se maçante. Post Mortem falha também no estabelecimento da atmosfera inerente ao seu gênero na maior parte de sua uma hora e quarenta minutos de duração, causando estranhamento somente em alguns pontos de cenas no necrotério, que soam repentinas justamente pela falta de crescendo do filme.

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As atuações de Castro e Zegers são competentes e tentam comover nos momentos em que o roteiro parece mais inspirado, contrastando o desespero e solidão de Mario com os motivos da tristeza de Nancy, tornando algumas cenas atraentes porém rasas. A direção detalhista de Larraín é um dos pontos que, apesar de não ter sucesso em tudo, sabe usar bem os quadros amplos e enquadrar com precisão as cenas e, aliada a fotografia de Sergio Armstrong, consegue transmitir o clima de época de forma característica, dando uma textura elegante ao filme. O pano de fundo político da obra se estende mais como paralelo não tão coeso à situação de Mario até a metade do filme, quando consequências desse momento político atingem diretamente o protagonista e o andamento da trama. É a partir do meio do filme que as coisas começam a tomar ares mais atraentes, chocando ao exibir os corpos como resultados da guerra que se instaurou e ao mostrar, na cena mais interessante do filme, a equipe do necrotério da qual Mario faz parte se recusando a realizar uma necrópsia – não de um cadáver qualquer – que foi ordenada pelos militares, aguçando a humanidade e deslocamento dos personagens, o que adiciona muito peso ao filme.

Post Mortem é salvo da mediocridade pelo seu terceiro ato, que mostra a crueldade e violência de um assustador fato histórico com crueza e realidade, o que não elimina seus muitos problemas. Em síntese, é uma entrada inferior na filmografia de Larraín, que com certeza tem muito a mostrar num futuro próximo, mas que exibe certa ambição e a evolução de um cineasta em franca ascensão.

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