O Lado Escuro da Lua (Die dunkle Seite des Mondes – 2015)

dunkle-seite-des-mondes-banner

Há 130 anos o escritor escocês Robert Louis Stevenson publicou um dos romances mais influentes da história da literatura mundial, Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, ou O médico e o monstro, em bom português. Umas das primeiras obras populares a tratar da teoria de que o mal habita em todos nós e que a nossa principal habilidade é mantê-lo escondido. Entre as notáveis figuras que leram esse romance está o Dr. Philip Zimbardo, renomado psicólogo que se dedicou a estudar esse estranho fenômeno que faz pessoas boas cruzarem a linha e cometer atrocidades, fenômeno que ele chamou de Efeito Lúcifer. Fenômeno que além de chamar a atenção de estudiosos do comportamento humano, inspira obras artísticas de todo tipo, como o thriller alemão Die dunkle Seite des Mondes, um filme um tanto quanto curioso que adapta o romance homônimo de Martin Suter.

A trama acompanha Urs Blank (Moritz Bleibtreu), um bem sucedido advogado empresarial que passa por uma crise de meia-idade após ver as consequências extremas de seu “bom trabalho”. Na tentativa de se reencontrar ele conhece uma jovem hippie que o apresenta um mundo novo, com festas, sexo e viagens com cogumelos alucinógenos. Após uma viagem errada, Urs perde suas inibições e o controle de sua personalidade, entrando numa espiral de violência que pode arruinar sua vida e de todos a sua volta.

dunkle-seite-des-mondes-die-1-rcm0x1920u

Um dos desdobramentos curiosos do Efeito Lúcifer, que eu citei acima, é a facilidade em encontrar “boas desculpas”. Sempre vai ter uma, foi por um bom motivo, foi por que a situação pediu, foi por que era a única saída, foi por que eu estava sob o efeito de um cogumelo alucinógeno. Atos de maldade raramente vêm sem uma justificativa plausível (pra quem o comete, é claro). E o poder de achar a desculpa para a violência talvez seja o que nos diferencie de um animal. Violência na natureza selvagem tem a ver com sobrevivência, não com maldade. Talvez isso explique a relação de Urs com a floresta e a importância que ela tem na trama.

Aliás, que floresta bem capturada. Um dos grandes méritos de Die dunkle Seite des Mondes é sua beleza. O filme é esteticamente incrível, sua fotografia, a iluminação e as paisagens escolhidas também. Tudo colabora pra criação do clima de suspense psicodélico, quase chegando na fantasia. Outra grande qualidade está nas atuações, até então só tinha visto Moritz Bleibtreu como coadjuvante em filmes americanos, mas seu trabalho é incrível aqui. Ele consegue transmitir a transição da segurança do grande executivo, para a fraqueza do animal violento e descontrolado.

No entanto, apesar de abordar um tema interessante, ter uma produção impecável e contar com um elenco inspirado, é na convergência desses fatores que o filme dá uma pequena derrapada. Como filme, o resultado é estranho, meio instável, mas não ruim. Só é um resultado diferente. No fim, o filme acaba sendo mesmo como uma viagem ao lado escuro da lua, mas que para alguns pode ser uma bela bad trip.

0 Total Views 0 Views Today