O Homem Duplicado – Um mais um pode não ser igual a dois

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Existem, basicamente, duas reações iniciais distintas a filmes muito complexos, e quando eu falo de reações inicias, estou tratando daquela que surge ao subir dos créditos finais. A primeira é o ódio imediato, e a sensação de que o diretor ou foi pretensioso demais, ou simplesmente não alcançou seu objetivo. A segunda é ficar ainda mais curioso, rever, ler e discutir a respeito, e ter uma probabilidade maior de gostar do filme. Apesar de eu ter me enquadrado no segundo caso, não tenho como julgar quem se junta ao primeiro grupo.

 

O Homem Duplicado é o novo filme de Dennis Villeneuve, diretor do excelente Os Suspeitos, e se baseia no livro homônimo de José Saramago. O protagonista é Adam Bell (Jake Gyllenhaal), um professor de história que leva uma vida monótona e envolta em um ar de mediocridade. Mas isso dá sinais de mudança quando ele recebe uma indicação cinematográfica de um amigo, e ao assistir ao filme descobre um ator inexplicavelmente idêntico a ele. A partir daí ele obsessa em descobrir quem é esse “clone” seu andando por aí.

 

Uma trama aparentemente simples, e até certo ponto batida, mas que é conduzida com maestria pelo diretor franco-canadense. A direção é minimalista, cheia de movimentos de câmera, ângulos propositalmente incômodos e com cenas objetivas e diretas. A simplicidade fica apenas na premissa, o longa é repleto de metáforas visuais e claramente tem a intenção de ser mais do que você vê durante os 90 minutos de projeção. Isso pode fortalecer a incompreensão para com a obra, já que o didatismo habitual do cinema moderno passa longe daqui.

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A fotografia amarelada transporta a bucólica Toronto do filme para uma outra dimensão, e isso se enquadra perfeitamente na mensagem final, além de evidenciar a preocupação do diretor com esses aspectos técnicos providenciais a um bom suspense. A trilha está fantástica ao criar a tensão, e reforçar a sensação de estranheza.

 

É um pouco injusto dizer que a excepcional atuação de Jake Gyllenhaal seja considerada uma surpresa, ele já merecia ao menos algumas indicações por sua outra parceria com Villeneuve, em Os Suspeitos. Ele cria dois personagens que só compartilham da mesma aparência, mas que o timbre da voz, a expressão corporal e o olhar transformam em pessoas completamente diferentes. Os outros nomes do elenco são um pouco subaproveitados, principalmente a linda Mélanie Laurent. Sarah Gadon e Isabella Rossellini até conseguem marcar presença com uma cena ou outra, mas Jake é o responsável pelo filme funcionar.

 

Talvez o principal erro do diretor, foi ter demorado um pouco para mostrar que o filme era mais do que um suspense comum, e também fazê-lo de forma sútil demais. A simbologia está presente em cada cena, que aliás não se estende em trivialidades. Absolutamente tudo que é colocado na tela tem um propósito, desde músicas, imagens, diálogos ao fundo, telefonemas e tudo o mais.

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No fim, O Homem Duplicado é um exercício de atenção e reflexão. É um filme que merece (precisa, eu diria) ser visto duas vezes para se entender todo o recado. Ele trata de narcisismo, traição, dissimulação, auto-conhecimento e controle, além das tentações ilusórias. Se eu puder enquadrar assim, diria que é um filme meio David Lynch, então não se surpreenda se no fim você estiver assim:

 

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Obs.: Não perca os aracnídeos de vista.

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