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O Filho de Saul (Saul Fia, 2015) é uma experiência visual, auditiva e emocional. O que László Nemes compõe nessa obra é algo singular em um meio que o cinema tanto já explorou. Ambientado em um campo de concentração Nazista na Segunda Grande Guerra, conta a história de um homem, Saul (Géza Röhrig), um judeu prisioneiro, que quer enterrar seu filho e precisa de um rabino para isso.

Você vai abandonar os vivos por causa dos mortos?

O que faz O Filho de Saul algo tão destacável é justamente esse caráter sensorial da obra. Filmado no formato quase quadrado do 1.37:1, com uma profundidade de campo baixíssima e quase todo em closes, causa agonia e limita a visão de quem o assiste, passando a confusão e inocuidade do protagonista. Os longos planos-sequência aliados a edição perfeita executada por Matthieu Taponier ampliam a veracidade da película e tornam ainda mais ofegante e ininterrupta a jornada. As poucas falas do protagonista – que só fala algo depois de 12 minutos de tela – parecem que vêm de dentro da cabeça do espectador, aquela voz abafada, que não está no mesmo tom das demais. Ao fundo se ouvem sons guturais de pessoas tossindo e vomitando, mas pouco é literalmente mostrado em imagem, assim como o protagonista que não olha diretamente para o sofrimento ao seu lado, causando em nós a aflição da impotência e do horror, nos trazendo o desespero de Saul cena por cena. Em questão estética, assemelha-se ao recente e também vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro Ida (2013), na medida em que quebra o visual cinematográfico tradicional e esbanja talento direcional de condução nas mãos de Nemes.

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O retrato de um local tão cruel é feito com maestria no roteiro de Nemes e Clara Royer e na já citada espetacular direção de László. A sujeira transborda no longa e o diretor húngaro não nos permite ver tudo, causando uma curiosidade culposa em querer ver o que não deve ser visto, e nem deveria ter acontecido, numa instigante construção que usa exclusivamente de uma visão subjetiva. A busca sem sentido do protagonista, que tenta resgatar o resto de humanidade dentro de si próprio na figura do filho, nos dá essa “visão em primeira pessoa” do pavor da guerra, que revela-se à medida que vamos percebendo o estado de Saul. Vamos descobrindo uma organização entre os prisioneiros, que se comunicam e possuem uma certa hierarquia, e que ajudam Saul na sua busca e questionam a obstinação do personagem principal, que age displicentemente com os companheiros vivos em favor do filho morto. Enquanto alguns documentam o campo em fotografias e textos e muitos conspiram a fuga, Saul quer somente enterrar seu filho. Essa discrepância e tenacidade que Saul representa e como elas surgem nos faz desconfiar do que realmente está acontecendo e da história que estamos acompanhando. O “plot twist” aqui, num filme emocional, serve menos como um elemento narrativo e passa para um retrato da insanidade daqueles acontecimentos e da busca por restos que a perda de tudo ocasiona.

Não há nenhum plano aberto no filme. As poucas cenas em que o foco não está exclusivamente em Saul são em quadros limitados e claustrofóbicos, amplificados pela fotografia escura e melancólica de Mátyás Erdély, que ajuda e muito na confecção do clima do filme e do afogo que ele provoca.

Saul procurando seu filho entre os cadáveres, tentando carregar a nado seu filho morto durante um fuga e a fila de pessoas tirando a roupa e encarando o fogo que em instantes as vai matar são cenas que mantêm o espectador preso e espantam pela crueldade e terrível veracidade. O trabalho de construção de tudo no filme, desde os cenários até a fotografia, passando pela direção primorosa de László Nemes e o impacto emocional que essa obra proporciona fazem de O Filho de Saul um jovem clássico e um triunfo cinematográfico.

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