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O chileno Pablo Larraín desconstrói uma certa estrutura e já provoca emoção no ponto inicial do seu novo filme, O Clube (El Club, 2015), de forma compacta e pesada (e alarmante). Numa casa, o tal clube, vivem quatro padres e uma freira, Mónica (Antonia Zegers), que serve como “chefe” do local, isolados por terem cometido algo – crime ou pecado. Quando um quinto padre chega e suas agruras tomam a forma de um agente externo, Sandokan (Roberto Farías), que grita os crimes do quinto padre para a janela do Clube, a tranquilidade começa a se desmantelar em reprovação. Isso só leva ao acontecimento que desencadeia a trama, que traz ao Clube um outro intruso, desta vez autoridade, na persona do Padre García, um conselheiro de crise interpretado por Marcelo Alonso, que começa a desenterrar os assombros dos habitantes daquele isolamento.

“-Eu queria ver vocês na cadeia.

“-Então fale com os jornalistas.

“-Não. Eu amo a Igreja e não quero prejudicá-la.”

Optando por não ocultar, mas mostrar em palavras, o roteiro de Larraín, Guillermo Calderón e Daniel Villalobos faz um filme não muito gráfico em sua maior parte, mas que provoca imagens perturbadoras somente com palavras. Flerta com o mistério de “porque os padres estão lá”, adicionando elementos que ameaçam o estado de conformidade mútua entre os padres e deles para com a freira. Larraín e seu conjunto não tem medo de adentrar em mentes amarguradas por dúvidas – ou frágeis certezas – que, mesmo com pesar, são as únicas que eliminam a solidão. Usando disso, O Clube cresce como um thriller sem vilão e herói definidos, tornando a empatia do espectador – sujeita a identificação por situação – dificultosa e um tanto deficiente.

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Num filme cru, as indagações cercam em situações de violência (desde o ponto inicial), com a auto-repressão tornando-se um instrumento de autoproteção, isso evidenciado em diálogos poderosos que transbordam as incertezas dos que vivem naquele “refúgio” e a perturbação causada pela imponente presença de inquiridor de García, que se vale da direção livre Larraín, que usa planos únicos, tracking shots, simetria, sabe usar o ambiente e retratar o clima local, se reservando até, em poucas cenas, uma condução que lembra Terrence Malick em leveza e desprendimento, mas nesses casos sem se ater ao belo mas ao intrínseco do horror e da repressão.

O drama, que se arrasta em momentos onde poderia ser conciso e repete cenas onde não é necessário, mas chega aonde quer, entrega no seu ato final um ápice da violência latente que permeia a obra, expondo os estragos que abusos podem causar, tanto pelo ato quando pela dificuldade de esses serem discutidos, e exprime na figura de Sandokan a vítima como uma consciência coletiva e relato cruel da fé deturpada. O que Spotlight: Segredos Revelados (Spolight, 2015) faz mostrando a investigação jornalística, O Clube faz mostrando a própria Igreja escondendo seus podres.

As atuações não se destacam, nem pra melhor nem pra pior. A trilha sonora original de Carlos Cabezas é minimalista e contextualizada e assombra, usando também de composições de Bach, Benjamin Britten e Arvo Pärt. A fotografia dirigida por Sergio Armstrong é azulada e distorce os quadros, usando de contra luz suave e envolvendo o filme em uma aura de névoa e de silhuetas.

Seguindo seu ótimo No (2012), Pablo Larraín continua em ascenção e aborda temas pesados de violência para conter a violência como uma solução escusa para um mal iminente, de dificuldades em sentir a convicção ameaçada e dos atos que humanizam animais por sua falta de personalidade e de animalizam humanos pelo seu excesso.

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