O Bosque de Karadima (El bosque de Karadima – 2015)

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O atual vencedor do Oscar de melhor filme, Spotlight – Segredos Revelados abordou um tema bastante polêmico: o abuso sexual cometido por sacerdotes e o encobrimento realizado pelos altos níveis da igreja católica. Um filme incrível, mas que tratou do assunto pelo viés jornalístico e investigativo, tendo como protagonista a equipe de repórteres do The Boston Globe que trouxe a história a público. No mesmo ano, porém, foi lançado um filme bem menos badalado, mas não menos relevante sobre esse assunto.

El Bosque de Karadima, do diretor Matias Lira, conta a história de um dos maiores escândalos envolvendo sacerdotes na América Latina. Escândalo protagonizado por Fernando Karadima, famoso pároco e personalidade chilena, amigo das elites politicas, formador de algumas dezenas de padres e condenado a uma vida de penitência pelo Vaticano por suas décadas de abuso sexual e psicológico cometidos contra vários seminaristas e até fiéis de sua paróquia. Mas diferente de Spotlight, a abordagem do filme de Lira é bem menos jornalística e muito mais pessoal, quase patológica, deixando de lado os melindres burocráticos a respeito dos mecanismos de defesa dessa instituição poderosíssima.

O foco aqui é a vitima, e é do ponto de vista dela que a história é contada. Thomas Leyton, vivido brilhantemente por Benjamín Vicuña, é um jovem com suas inseguranças e confusões, em relação a sua função, a uma provável vocação religiosa, a sua família e a sua sexualidade. Um jovem que vê no Padre Karadima (Luis Gnecco), uma mistura de figura paterna e guia espiritual. Uma figura que se aproveita de todas as fraquezas e incertezas de Leyton para iniciar uma história de abuso que durará até sua vida adulta.

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De certa forma, o filme nos mostra um caso de dependência psicológica causada por uma vida de abusos, quase como uma síndrome de Estocolmo. O histórico de Leyton, a sua experiência familiar, tudo isso o faz desenvolver uma espécie de incapacidade de reagir, de responder as situações pelo qual ele passa. O tipo de quadro que vemos em casos de assédio moral, de violência doméstica. É uma situação que fica bem clara em alguns diálogos entre Leyton e o Padre para quem ele conta sua história. Por qual razão ele não consegue se livrar dessa situação? O que o faz ainda nutrir um tipo bizarro de afeto ou respeito pela figura que lhe causa tanto mal? É uma tentativa inconsciente de amenizar essa situação terrível? É algo que a psicologia talvez consiga responder, mas que o roteiro apenas especula.

El Bosque de Karadima acaba sendo um filme incomodo, por vários motivos, primeiro pela forma lenta que a narrativa encontra para desenvolver esse trauma, o que acaba “traumatizando” o espectador também. Segundo por que ele testa nossa capacidade de ter empatia, apresentando uma história que caminha do limite da culpabilização da vitima. E uma culpabilização que não vem apenas de terceiros, mas da própria vitima. Algo que reforça o quão profunda é a cicatriz emocional que um caso desses pode causar. Vale dizer que esse incomodo parece proposital, na intenção de botar o dedo na ferida, nos fazer refletir sobre as figuras em quem depositamos confiança, tenha motivação religiosa ou não, ou nos julgamentos que realizamos, ao responsabilizar as pessoas por coisas sobre as quais elas não tem o menor controle.

É um filme relevante em várias esferas, na de denúncia, na de análise psicológica e até na de crítica comportamental e estudo social. Aborda a relação das pessoas com a fé e com as instituições que a “representam” e a força devastadora de um trauma. É um filme forte, que não deve agradar a todo tipo de público, mas que vale a pena ser visto. Tem no Netflix.

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