Miss Marvel, o fenômeno mundial de G. Willow Wilson e Adrian Alphona, acaba de chegar ao Brasil com o encadernado Nada Normal.

Miss Marvel é Kamala Khan, uma “supermuçulmana de dezesseis anos, transmorfa, que usa máscara, e nascida em Jersey City”, em suas próprias palavras. No primeiro volume, acompanhamos sua transformação em super-heroína e, a partir disso, a transformação dos diferentes espaços que ela habita.

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Kamala Khan é uma super-heroína marginal em todos os aspectos.

Ela vive à margem de Carol Danvers, a Capitã Marvel, símbolo feminista e Vingadora mundialmente respeitada, de quem adotou o antigo codinome e uniforme. Vive à margem de seus pais, que exigem sua obediência e a quem não pode revelar seus segredos. Vive em Jersey City, à margem de Manhattan, o centro do mundo super-heróico, ponto vital do planeta e base de atuação dos Heróis Mais Poderosos da Terra.

A margem é uma posição intermediária, um espaço de tensão e transgressão. Nesse sentido, a margem é sempre transformadora. E a história de Kamala é feita de quadrinhos em movimento, de imagens que se chocam, que quebram barreiras e que lutam por espaço.

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Kamala ocupa diversas posições intermediárias. É americana e filha de paquistaneses, é fã de super-heróis e super-heroína iniciante, é adolescente e assume responsabilidades adultas. Suas aventuras envolvem espaços claramente delimitados, além de transições estreitas entre um espaço e outro. Há sempre um conflito entre o permitido e o proibido, entre o obrigatório e o negado.

Há o espaço virtual, aquilo que Kamala gostaria de ser, de Carol Danvers a Taylor Swift. Há o espaço privado, aquilo que Kamala é, seu próprio corpo. Há também um espaço familiar, sua casa e seu quarto, um espaço social, o colégio e a mesquita, e um espaço público, a rua e a cidade. Por fim, há o espaço linguístico, a própria página de sua história em quadrinhos e os elementos que a formam.

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Kamala está sempre aprisionada. De castigo, não pode sair do quarto. Em detenção, não pode deixar a escola. Na mesquita, deve recolher-se à ala feminina, destinada a “protegê-la dos olhares masculinos”.

Graças à sua natureza marginal, Kamala quebra cada um desses espaços. Sai escondida pela janela, utiliza entradas laterais, invade casas abandonadas, se esconde no vestiário, foge pra rua. Sua vontade de escapar se torna inevitável ao adquirir superpoderes, ao se ver imersa em névoas inumanas que libertam seu potencial genético, que se insinuam pelas frestas de seu mundo e a aprisionam em um casulo transformador.

Transmorfa, ela transgride.

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Kamala é capaz de alterar sua própria estrutura molecular. O que significa, entre outras coisas, aumentar ou diminuir de tamanho e transformar-se em outra pessoa. No entanto, ela não tem controle sobre seu corpo. Está, no fundo, à margem de si mesma, e não sabe quem ou o quê deseja ser. Na forma de membros desobedientes, seu corpo expressa suas condições mentais. Ao mudar sua aparência, Kamala precisa se convencer a voltar ao normal, já que seu movimento corporal mais instintivo é torná-la uma cópia de Carol Danvers, loira, branca, popular e segura de si. Ela diminui ao sentir-se pequena, e não o contrário. Da mesma forma, cresce ao sentir-se poderosa e capaz.

Kamala é o símbolo vivo de toda sua comunidade, e de qualquer comunidade que luta por espaço. Ela é a ideia transgressora de que mulheres muçulmanas também são dignas de adquirir e exercer poder, até mesmo superpoder.

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Em Miss Marvel, a própria linguagem dos quadrinhos é torta. Os traços são incertos e quebradiços, como se pudessem, a qualquer momento, mudar de forma. Os requadros, ao redor dos quadrinhos, variam em ângulo e se entrecruzam em desafio à religião da linha reta. Sua história transgride também a estética, e Kamala assume uma esquisitice própria. É, como diz a série, “nada normal”.

Kamala é elástica, moldável, quase grotesca em seus movimentos e transformações. Ela se estica, se espalha, se retrai, se vomita, se atualiza em versões cada vez mais extravagantes. Cria, em suas constantes metamorfoses, novas modalidades de ser. Como nenhuma outra super-heroína, em todo o desastre de sua figura.

E assume, muçulmana e marginal, uma identidade múltipla. Diz aí, Kamala.

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Deixe seu comentário:

  • Luiz Guilherme Silva

    Excelente texto! Vontade de ler essa história agora 😀

  • Mat Conter

    Demais! 🙂 Quero ser que nem ela quando eu crescer hehe

  • Taxi Café

    Muito legal! Eu realmente quero ler isso!

  • miltonsalles

    O comentário abaixo é meu! uahuahua…
    Bom, eu realmente quero ler isso!



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