O ressurgimento de Matthew McConaughey em oito passos

Em meados de setembro desse ano vai acontecer a 66ª edição do Emmy Awards, ou como a tv brasileira diz: O Oscar da televisão, muita coisa vai acontecer até lá, eu sei, mas eu posso apostar que um dos favoritos a faturar o prêmio de melhor ator em série dramática será o mais novo Oscar Winner do pedaço, Matthew David McConaughey, por sua brilhante atuação, na não menos brilhante série True Detective. Hoje é fácil apostar nisso, devido a moral altíssima que Matthew alcançou de uns tempos pra cá, mas tenho certeza que nem o mais maluco dos cinéfilos se arriscaria a dizer isso lá em 2010.

O que mudou de lá pra cá? Como McConaughey conseguiu virar a chave da sua carreira e deixar de ser só mais um galã de comédias românticas genéricas, para se tornar um dos mais respeitados atores da atualidade?  Como se deu esse ressurgimento? Bom, a resposta é até simples, ele começou a atuar e usar o talento que já tinha demonstrado no inicio da sua carreira, em meados dos anos 90, em filmes como Contato, Tempo de Despertar, Amistad, Lone Star e Tempo de Matar.

O próprio Matthew já declarou qual foi o fator que o motivou a repensar o que ele pretendia para a sequência da sua carreira, sua esposa, a brasileira Camila Alves, mãe dos três filhos do ator. Benditos sejam os conselhos da modelo, poucas vezes um astro conseguiu mudar de rumo tão rapidamente e com tamanho louvor. Mas apesar de ter acontecido rápido, essa transformação foi diluída em 8 passos, ou 8 trabalhos, divididos nesses 4 anos, ora como coadjuvante, ora como protagonista, então vamos voltar alguns anos no tempo para lembrar, passo a passo, como McConaughey deixou de ser um descamisado genérico, para se tornar um intenso ator dramático.

Bernie – Quase um Anjo (2011)

Bernie Quase Um Anjo - Capa Filme DVD

Sim, tudo começou com a comédia de humor negro, Bernie, do diretor Richard Linklater, um ótimo filme que passou um tanto quanto despercebido por aqui. A comédia é baseada em fatos reais e mostra a história do assassinato de uma viúva megera (Shilery MacLaine), odiada pelos moradores de sua pequena cidade, e o choque e incredulidade da população, quando Bernie (Jack Black), o cidadão mais exemplar e boa praça do local, é acusado pelo crime. A participação de Matthew é pequena, sim, mas nas poucas vezes em que ele aparece, consegue ser convincentemente engraçado no papel do Xerife Danny Buck, que acredita na culpa de Bernie, e faz de tudo para colocá-lo na cadeia. O desempenho de Black e MacLaine também merece elogios no longa, Black inclusive foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel. Então, se você ainda não viu Bernie, veja que vale a pena.

Killer Joe – Matador de Aluguel (2011)

maxresdefault

O segundo passo dessa ressurreição veio de maneira sensacional, em todo o conjunto da obra dirigida pelo experiente William Friedkin, de O Exorcista, e baseada na peça de teatro de Tracy Letts, que também assina o roteiro do longa. O filme mostra Chris (Emile Hirsch), um filho que planeja, junto do pai, matar a própria mãe, que nenhum familiar suporta, para ficar com dinheiro do seguro. Para isso ele contrata os serviços de Joe Cooper (McConaughey), um metódico policial que faz “bicos” como matador de aluguel, mas esse impõe uma condição extrema para realizar o serviço. Matthew está genial no papel, intenso alucinado e violento, tal qual o resto do filme. Hirsch também volta a se destacar, depois de um período sumido. O filme é tenso e violento, mas é um dos melhores que eu vi nos últimos anos, e se coroa com a cena do frango frito, que está entre as mais hilárias e ultrajantes do cinema recente.

Obsessão (2012)

The-Paperboy

No ano seguinte ele estrelou, ao lado de Zac Efron, Nicole Kidman e John Cusack, o incompreendido Obsessão (The Paperboy), do diretor Lee Daniels (Preciosa). Incompreendido por que? Bom, os críticos brasileiros até abraçaram o longa, elogiaram bastante, já os gringos malharam com o filme até não poder mais. A história acompanha os irmãos Ward (Matthew) e Jack (Efron), que retornam para a sua pequena cidade interiorana no sul dos EUA, isso por que Ward é um jornalista que vai cobrir um caso de assassinato, no qual ele acredita na inocência do réu (Cusack). Os dois estão acompanhados de outro jornalista (David Oyelowo), negro, britânico e bem-sucedido, o que incomoda os moradores sulistas da década de 70, e de Charlotte (Kidman), a excêntrica namorada do réu, que diz ter reunido provas para inocentá-lo. O que se sucede é uma relação de acontecimentos estranhos e que tiram o espectador da zona de conforto, a fotografia quente setentista, o clima pesado e a sexualidade abundante e até bizarra dão o tom no decorrer do filme. Mas o que mais chama atenção são mesmo as atuações, John Cusack voltando a atuar muito bem, Efron mostrando que pode deixar para trás o período Disney e construir uma carreira sólida, sem apelar somente para a beleza, Nicole Kidman está impagável e irreconhecível, vulgar e insinuante, e proporciona uma das cenas de sexo mais bizarramente engraçadas do cinema, e Matthew, mais contido do que nos outros trabalhos da lista, dá vida ao jornalista da cidade grande que volta ao interior e se depara com velhos dilemas, o seus questionamentos sexuais também são expostos, principalmente devido ao preconceito da época. O final a lá Onde os Fracos não tem vez dá uma quebrada no ritmo frenético, mas é só pra mostrar que na vida real, nem sempre existe um fechamento satisfatório para as histórias.

Mud – Amor Bandido (2012)

Mud Banner Poster

No mesmo ano mais um trabalho digno de aplausos, Amor Bandido, do diretor Jeff Nichols, uma história de amadurecimento e de amizades incomuns. Aqui Matthew é Mud, um foragido da justiça que volta para o Arkansas para reencontrar o amor da sua vida, e que se instala em um barco abandonado em uma ilhota. Em paralelo conhecemos os jovens amigos Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), que tem que lidar com o amadurecimento, em especial Ellis, que tem que conviver com o divórcio dos pais, o risco de perder a casa e a paixão repentina por uma garota mais velha. Eles conhecem Mud, e resolvem ajuda-lo a reconquistar a amada Juniper (Reese Whiterspoon). Mais uma vez um drama muito bem feito, mas que fica em segundo plano devido as atuações maravilhosas. O garoto Tye vem se mostrando um dos adolescentes mais promissores da indústria, e que mesmo com pouca idade já carrega uma expressão forte e atuações convincentes em Mud, e no seu trabalho anterior, A Árvore da Vida. Reese Whiterspoon, quem diria, sai de seus limites de comédias românticas e faz um dos melhores papéis de sua carreira, enquanto Matthew traz um sotaque carregado e uma expressão de tristeza que consegue demonstrar a perturbação que o amor não correspondido lhe traz. O filme também passou meio batido no circuito comercial, mas teve muito destaque em festivais, e com certeza é um filme que merece ser visto.

Magic Mike (2012)

magic-mike

Chegamos ao filme menos aclamado dessa nova fase de Mattthew, mas que não deixa de demonstrar certo valor. O longa que esbarrou em um certo preconceito de 95% do público masculino heterossexual, mostra por um ângulo emasculante os efeitos da crise financeira, e as maneiras pouco ortodoxas de manter o American Way of Life. Ao contrário de Obsessão, a crítica e o público americano adoraram o filme, enquanto os especialistas e público brasileiro detestaram. Magic Mike também serve como uma espécie de auto-biografia para a estrela e produtor do projeto, Channing Tatum, que foi stripper antes de se tornar ator. Talvez o motivo do sucesso do longa, além de mostrar os galãs de Hollywood exibindo seus corpos sarados, seja a presença do ótimo, porém inconstante, diretor Steven Soderbergh. As maiores críticas mesmo ficam ao roteiro incrivelmente previsível escrito por Reid Carolin. A unica unanimidade foi mesmo a atuação de McConaughey, que vive Dallas, um ex-stripper que agora é dono de um clube e comanda os outros dançarinos, e também mostra que pode voltar a ser um galã descamisado, se preciso for.

Clube de Compras Dallas (2013)

Dallas_Buyers_Club_hi_res_JPEG

O trabalho que rendeu o prêmio máximo a Matthew, e que foi a prova definitiva de seu talento. Um filme que depende exclusivamente da inacreditável atuação dele e de seu colega premiado, Jared Leto. Houve quem duvidasse do real desempenho dos dois, jogando a radical mudança física pela qual eles passaram, como se fosse o motivo da indicação. Mas não foi, o cowboy machista, homofóbico e inconsequente vivido por ele consegue ser odiável e admirável ao mesmo tempo, um personagem complexo, difícil, e do qual ele consegue controlar todas as nuances e transformações vividas. O conjunto da obra é válido por isso, já que o diretor Jean-Marc Vallée escorrega na hora de escolher o tom que o filme vai segui. No fim, o prêmio foi muito justo, e coroou a sensacional ascensão de um ator hiper talentoso.

Leia aqui a nossa opinião sobre Clube de Compras Dallas

O Lobo de Wall Street (2013)

THE WOLF OF WALL STREET

Não há muito mais a ser dito sobre O Lobo de Wall Street, o fantástico filme de Martin Scorsese estrelado por Leonardo DiCaprio, a não ser que em minha singela opinião, merecia ter levado o Oscar de Melhor Filme. Mas e Matthew? Ah, se Mathhew fizesse mais cenas, além de sua curta participação especial, provavelmente brigaria pelo Oscar de coadjuvante também. Em apenas uma cena ele quase rouba o filme pra si, tanto que eu fiquei esperando para que ele voltasse no meio da projeção. Creio que muita gente pensou o mesmo. Mark Hanna é o personagem dele, o primeiro patrão de Jordan Belfort, responsável por instrui-lo e situá-lo no mercado financeiro. Mathhew realmente mostrando que pode fazer qualquer personagem.

Leia aqui a nossa opinião sobre O Lobo de Wall Street 

True Detective (2014)

HBO's "True Detective" Season 1 / Director: Cary Fukunaga

A tela grande não foi o suficiente para suportar a explosão do talento de McConaughey, e ele foi parar nas telinhas da HBO, na primeira temporada da antologia True Detective. Aqui ele vive o amargurado detetive Rust Cohle, atormentado pelos fantasmas de suas perdas passadas, e por anos de trabalho infiltrado no perturbador universo das drogas, e que tem que solucionar um complicado caso, junto de seu colega Marty Hart (Woody Harrelson). A postura niilista dele é de enlouquecer qualquer um, cheio de grandes sacadas e inspirações filosóficas vindas de Nietzsche e Schopenhauer. As suas críticas feitas a todo o modo de vida que não levará a lugar algum, como quando ele diz coisas como “Eu vejo uma propensão a obesidade. Pobreza. Uma veia para contos de fada. Povo que coloca o pouco dinheiro que têm dentro da cestinha que passam adiante. Dá para ver que ninguém aqui é um gênio, Marty.”, descrevendo o comportamento dos religiosos no país mais protestante do mundo. A sua interpretação é tão surreal que chega a ofuscar o também brilhante Woody Harrelson, que também volta a mostrar o seu talento.

Leia aqui a nossa opinião sobre a 1ª Temporada de True Detective 

A qualidade das atuações de Matthew impedem que a gente se importe com o fato de ele não voltar para a próxima temporada, por que é tão inacreditável o que ele já provou fazer, que só existem projeções otimistas para seus próximos trabalhos. Ele pode errar? Claro que pode, mas o crédito alcançado nesses oito trabalhos, eliminam qualquer possibilidade de mancha em sua nova fase.

A McConaissance ou McConascença, como ficou conhecida essa trajetória, atingiu o seu ponto mais alto, e agora só o tempo vai mostrar para que lado vai esse grande ator. Talvez não haja mais espaço para evolução, mas eu pensei isso quando assisti Killer Joe, então parece que o céu é o limite.

0 Total Views 0 Views Today