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Lixo Extraordinário é um documentário que trata da obra do artista Vik Muniz durante os dois anos que ele passou no aterro sanitário Jardim Gramacho, trabalhando suas fotos com os catadores de material reciclável. E essa sinopse é extremamente superficial e fria para um filme de tamanha profundidade!

Com muita delicadeza, porém cruamente, somos jogados na vida dos catadores e obrigados a percebê-los além de seus sacos de lixo.

Isso não é lixo. Isso é material reciclável. Isso é dinheiro

A essa frase, dita por um dos catadores do Jd. Gramacho, eu ainda acrescentaria: isso é arte.

Lixo, reciclagem, dinheiro, arte: tudo faces de um mesmo elemento, o que muda é o ponto de vista, o momento e o observador.

O ponto de vista que Vik Muniz nos mostra é a partir das fotos dos catadores, naturais em seu trabalho ou, lindamente, construídas em estúdio. Uma vez tiradas, as fotos são projetadas no chão, onde são redesenhadas usando os materiais recicláveis, para, posteriormente, tornarem-se grandes fotos que serão leiloadas. E o dinheiro, revertido para associação dos catadores.

O momento em que uma coisa se transforma em outra é o momento mais bonito.”, diz o artista durante as filmagens e ele está cheio de razão! O momento em que o lixo vira arte é o momento em que o catador vira um indivíduo, e assim passamos a enxergá-los verdadeiramente. É, de fato, extraordinário.

É também extraordinária a transformação na vida dessas pessoas depois da intervenção de Vik Muniz. Além da melhora financeira, alcançada com a ajuda dos centros de ensino e bibliotecas (formadas com o dinheiro arrecadado do leilão das obras), há ainda a questão humana, a melhora na alma dessas pessoas, o resgate da autoestima delas. Ao trabalharem com Vik, elas sentem que participam de algo maior e veem suas histórias sendo contadas para o mundo, por meio das belas imagens produzidas pelo artista.

É emocionante ver o processo de confecção das obras e foi preciso conter as lágrimas quando a primeira obra é leiloada – por 28 mil libras!

Apesar de nos levar a uma série de reflexões, em nenhum momento o filme é piegas ou apelativo. A produção é de extrema qualidade e bom gosto, bem dirigida e com trilha sonora discreta, porém sabiamente conduzida.

E só um detalhe: produzido por Fernando Meireles e as músicas a cargo de Moby. Tem como dar errado?

Recomendo não só assistir a esse documentário, mas assistir até mais de uma vez. Como sou professora, e trabalhei esse filme com meus alunos, eu o assisti no mínimo quatro vezes, e cada vez, o via sob uma perspectiva diferente, me apegava e me emocionava com outros elementos.

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