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Iniciando Kill List (2011) como um drama familiar, Ben Wheatley constrói o longa, à exemplo de seus outros filmes High-Rise (2015) e A Field In England (2013), em uma decadência que parece inevitável. Brincando com a percepção, ou conhecimento prévio do interlocutor, vai rapidamente trazendo à tona a verdade do filme, mostrando o violência potencial desde o início, até em cenas de brincadeira do casal de protagonistas, Jay (Neil Maskell) e Shel (MyAnna Buring), com o filho. Transmite, através da trilha sonora impecável de Jim Williams e da edição rápida, tensão em cenas simples, como o casal se vestindo, provocando aflição em sequências nas quais a violência ainda não está presente, pelo menos em sua forma final.

Olhe para eles, bastardos felizes.

O roteiro de Wheatley e de sua companheira Amy Jump, que nada de complexo apresenta em termos de estrutura ou profundidade, consegue trazer uma ansiedade culposa por aquela violência latente e atraente, aquela pseudo-catarse que nos exalta sem nos fazer maus, mas a ausência de um plot significativo incomoda. A arte do filme reside no ponto de essa ânsia ser compartilhada com o personagem de Jay – um assassino de aluguel que não trabalha há algum tempo – criando uma sutil e estranha interação entre espectador e estória, onde nos pegamos torcendo para um psicopata fazer o que quer. Na maior parte da obra, as cenas são precisamente escolhidas, evitando cenas desnecessárias e condensando o thriller em excertos essenciais ao suspense e em sua maioria bem pontuadas em sua coerência, o que não elimina algumas cenas insossas.

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Quando Kill List parte para a violência gráfica extrema como forma de chocar, faz isso sem transfigurar o psicopata profissional como justiceiro, mas mostrando a depravação e o descontrole do ato de pura violência imoral mascarada de punição, e faz isso nos questionando se realmente Jay é um vilão por si ou um mal necessário. E chocar é algo que Kill List faz muito, mostrando sem cortes imagens fortes e forçando o limite quanto ao verdadeiro propósito de Jay.

O elenco encabeçado por Neil Maskell e MyAnna Buring é em boa parte impressionante, com Maskell mostrando atuação poderosa em suas cenas explosivas e Buring – cuja personagem também é “profissional da mesma área” – fazendo o mesmo, seja em suas cenas ao lado de Jay ou nas poucas cenas em que está sozinha. O melhor do elenco fica para Michael Smiley interpretando Gal, amigo do casal e companheiro de profissão, que tem atuação sólida e precisa e com uma amplitude dramática bem superior aos demais. Emma Fryer no papel de Fiona – amante de Gal – é o ponto fraquíssimo do elenco, parece que não quer estar ali e causa outro tipo de agonia da proposta pelo filme.

Ben Wheatley é um talento visual e dirige bem com sua câmera nervosa mas sem perder o foco, mostrando precisamente o que ninguém quer ver mas todo mundo quer ver. A fotografia de Laurie Rose é realista e contida, mas se permite a pontuais cenas visualmente mais significativas em que pinta o protagonista de vermelho.

No terceiro ato, a adição do estranho contribui na composição do suspense em ascensão, não permitindo que o longa caia em tédio depois de mostrar cenas chocantes pela maior parte de sua exibição, apesar de nesse momento o filme pender para a abstração de forma um tanto repentina e descuidada, com a coroação da violência – que é um dos pontos altos do filme também – e o culto ao extremo tomando formas que distorcem a imagem realista do que o filme propusera até então, mas mantém um certo nível de sanidade ao tratar a esposa e o filho de Jay como o monstro que impede sua liberdade.

Aparentemente sem pretensão de filme profundo mas se revelando ao final, Kill List é uma experiência de gênero que utiliza bem os recursos cinematográficos a serviço do suspense e, mesmo que não tenha sucesso em tudo, tem seu valor e deve agradar os fãs do estilo.

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