Informações
Título Natureza Selvagem
Título Original Into the wild
Diretor(es) Sean Penn
Elenco Emile Hirsch
Marcia Gay Harden
William Hurt
Autor(es) Jon Krakauer

Na Natureza Selvagem (Into the Wild, no idioma original), é um drama biográfico sobre a vida do jovem Christopher McCandless, também conhecido como Alexander Supertramp, que, por uma série de fatores as quais vamos explorar, decidiu seguir sozinho rumo ao Alaska. Chris morreu aos 24 anos de idade, em um ônibus abandonado (The Magic Bus), no Parque Nacional Denali. Sua história foi publicada no livro do jornalista Jon Krakauer, em 1996, e adaptada para o cinema em 2007 com a direção de Sean Penn. Iconizado por parte da geração dos anos 90, a história de Alexander Supertramp tem muito a nos ensinar sobre a emergência da vida adulta.

Chris se formou pela Universidade de Atlanta, em 1990, por anseio de seus pais, mas nunca se adequou ao meio em que vivera durante sua vida toda. A relação conturbada e acomodada de seus pais, o descontentamento com a ideia de um futuro seguro que, para ele, era perigoso ao homem (“ […] mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro”, trecho da carta de Christopher para Ron Franz, um amigo que fez durante a viagem), enfim, existem fatores comuns entre Chris e boa parte dos jovens que criam dúvidas e geram uma constante infelicidade na forma de viver.

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Apesar de a obrigação de ser efetivamente um adulto (por adulto, entende-se como alguém de obrigações financeiras que levam à independência tanto como à dependência) ter se estendido com relação à idade, uma vez que nossos pais e avós tiveram de assumir responsabilidades muito precocemente, o modo de vida tal como é hoje não satisfaz a parcela mais nova da sociedade. Estudos sugerem que a culpa disso está atrelada à revolução tecnológica vivida pelas gerações mais novas, enquanto os pais preferem assimilar a insatisfação com uma simples sensação de preguiça. De certa forma, eu concordo, visto que a vida tal como é imposta hoje não satisfaz as necessidades essenciais do homem: paz de espírito, felicidade plena, amor, compreensão, dedicação, enfim, talvez essas necessidades também não fossem cultivadas anteriormente, mas (e, agora, chegamos ao ponto tecnológico) hoje conseguimos tecer uma rede de contatos por afinidade que transparece muito mais o imaginário do jovem acerca da vida adulta.

O modo que Christopher encontrou para satisfazer os seus anseios foi o isolamento, algo que, a princípio, pareceu uma solução para ele (“se pensas que a alegria emana, apenas ou principalmente, das relações humanas estás errado. Deus colocou tudo à nossa volta. Está presente no tudo e no nada que possamos experimentar”, trecho de Christopher), mas depois descobre que a vida sem o contato humano se torna parcialmente vazia (“a felicidade só é real quando partilhada”, frase escrita à mão em um de seus livros encontrado no “Ônibus Mágico”). E talvez esse contraste seja um dos maiores ensinamentos que podemos obter ao conhecer sua história.

O fato é que, talvez devido à facilidade de acesso, ou também possivelmente devido a esse anseio familiar, a sobrecarga aplicada a partir dessa emergência da vida adulta tem tornado o jovem um ser individualista e infeliz. Sem entrar no mérito de discutir à necessidade de consumo estimulada dentro do sistema capitalista e à meritocracia moralmente fundamentada pelo liberalismo (tão amado pelas classes socialmente mais abastadas), a geração mais jovem precisa frequentemente decidir entre “aquilo que ama” e “aquilo que condiciona”. Ou seja, abrir mão de um curso de graduação (algo que não deveria ter relação com questões financeiras, visto que educação não é comércio) para escolher outro devido à subsistência.

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Christopher abriu mão desse impasse quando doou US$ 24 mil a uma instituição de caridade e seguiu rumo ao Alaska em seu Datsun. Ideologicamente fundamento por pessoas como Jack London, Kerouac, Thoreau e Tolstói, compreendeu que o sentido de sua vida estaria ao lado de uma estrada inimaginável e de uma natureza incompreensível. Devido a essa escolha, existem pessoas que até hoje reduzem o posicionamento de Chris perante à própria vida imposta como se fosse um simples descontentamento da juventude, passível de ser tratado com uma dose cavalar de repressão familiar. No entanto, aqueles que sentem, dentro do núcleo familiar, o peso das cobranças e a insistência sobre decisões as quais são difíceis de serem tomadas, entendem parcialmente a ânsia de Chris por uma vida pacífica, longe do desespero da posse, da necessidade pífia do acúmulo, de uma ideia de futuro sempre mais relacionada ao fator econômico do que ao fator bem-estar.

Como Christopher McCandless, a geração mais jovem vive crises de identidade que precisam de seu próprio tempo e espaço para serem compreendidas, bem como apoio para não serem suprimidas. O laço familiar não pode inibir a tomada de decisões baseado no fator protetivo, visto que as vidas possuem segmentos independentes e cada ser é responsável pela sua própria bagagem. Ao aceitarmos esse fato, compreendemos não apenas a angústia vivida por Chris quando condicionado a um modo de vida o qual não se adaptava, mas também a necessidade de remontar o nosso próprio estilo de vida (talvez cedendo em certos pontos, mas nunca abrindo mão daquilo que pode se tornar essencial à felicidade).

Jack London, uma das inspirações de Christopher, escreveu que “a verdadeira função do homem é viver, não existir”, como forma de deixar claro o desperdício de tempo que praticamos durante a vida. E continuou, “não gastarei os meus dias tentando prolongá-los”. E de fato, não é possível atrelar o tempo de vida à qualidade da mesma, mesmo que isso esteja enraizado no senso comum. De certo modo, as pessoas insistem em viver mais para saciar os resquícios do passado. E então, prega-se a ideia de que viver por mais tempo é sinônimo de ter uma vida agradável, o que normalmente é o contrário. Quando insistimos em viver cem ou duzentos anos, não é porque tivemos uma vida proveitosa, mas porque justamente associamos o tempo à essa busca. Insistimos, então, em viver cem ou duzentos anos porque na verdade não vivemos nenhum.

Recomendo que assistam ao filme (que, inclusive, conta com a trilha sonora de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, que compôs Society, uma crítica emblemática que vai de encontro a tudo que o filme relata) e, se tiverem interesse, leiam o livro de Jon Krakauer, pois ele conta a história de Christopher em conjunto com outras histórias semelhantes.

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Adriano Camargo

Adulto índigo definido pela sociologia como parte (integrante, mas insignificante) da Geração Y

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  • Luid Romanoff

    Um dos melhores filmes que eu já assisti.


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