Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild – 2012)

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Sentindo as batidas dos corações dos animais, Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) inicia Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, 2012), um filme que em menos de dez minutos emociona e impacta quem o aprecia. Em um mundo decadente, vivem Hushpuppy, seu pai Wink (Dwight Henry, de 12 Anos de Escravidão e o vindouro The Birth of a Nation) e uma sociedade de rejeitados pela sociedade maior. São separados do resto do mundo por um dique e por água, vivendo numa região alagada que chamam de A Banheira. Parece ficção pós-apocalíptica, mas não é. É pré-apocalíptica, é atual.

Sempre, em todo lugar, todos os corações batem e bombeiam. E conversam de formas que não entendo.

Eles vivem em um mundo real. A Banheira é real, onde “os peixes não vem em plásticos nem os bebês em carruagens ou frango em palitos”. Existem num local abrasivo física e psicologicamente. Essa agressividade Benh Zaitlin, que escreve e co-roteiriza ao lado de Lucy Alibar, autora também da peça original, passa de forma impetuosa, mostrando a sujeira e a degradação sem vergonha na lente e causando desconforto no espectador, que pode demorar à se acostumar com as imagens. Do mesmo modo, consegue ser sensível em certas sequências e aumentar a sensibilidade de quem assiste ao intercalar o brutal com o fantástico. Alternando também em cenas minimalistas seguidas de grandiosas, o roteiro, direção e edição não se deixam prender a um retrato linear, leva a ondas de surpresa e choque com inteligência e precisão, trazendo a metáfora à tela  pelo potente impacto que ela tem.

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O impacto emocional da obra é, aliás, algo de ordem grandiosíssima. A tragédia crônica das vidas retratadas nos faz entender toda uma vivência em uma hora e meia de tela, e o clichê da fantasia como escape da realidade aqui é levado a um nível emocional extremo, em cenas como em que Hushpuppy supõe que seu pai se fundiu à natureza. São vidas que flertam com o fim do mundo todos os dias, em todos os momentos, e alguns heróis ousam poetizar a tragédia. Enquanto Hushpuppy cria seu mundo para fazer sentido da realidade, seu pai a ensina, duramente, como sobreviver, e ela é uma criança aprendendo a sobrevivência. É absolutamente impossível não sentir Hushpuppy, do mesmo jeito que para ela é impossível não perceber e sentir o mundo ao seu redor, o mundo que a compõe.

Semelhante a Indomável Sonhadora, é possível colocar o que Debra Granik fez em Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010), com seus personagens vivendo também na margem da inexistência, mas no longa de Zeitlin temos um consciência transcendente na figura da própria Hushpuppy, que, nos altos da sua fantasia, encontra lucidez e consciência de mundo de uma forma estarrecedora. Como dito, o impacto é grande, mas a força da maravilhosa protagonista é ainda maior.

O elenco é verdadeiro. Quvenzhané Wallis mostra uma assustadora capacidade em frente à câmera, emocionando, brincando e ensinando como pouco se vê. Dwight Henry entrega a dureza do calejado e resiliente pai de maneira perfeita, liderando um elenco de “secundários” que não deixa à desejar em nenhum momento. Secundários pois o filme é mesmo de Quvenzhané Wallis, sem dúvida.

Fotografado por Ben Richardson da forma mais simples e verdadeira possível e com uma trilha grandiosa e otimista de Dan Romer e do prório diretor, o clima de desesperança com resquícios de força se estabelece desde o primeiro segundo e não cessa até o final (e que final!). Numa “terra” onde qualquer luz é esperança – para quem ainda consegue ter esperança e não só teimosia – Indomável Sonhadora desbrava personagens que mascaram miséria com coragem e se escondem do fogo em caixas de papelão. Pode ser chamado de filme social, mas seu impacto é tão profundo que tentar proferi-lo em forma ampla seria um crime. Indomável Sonhadora consegue tocar em vários pontos, e tem sucesso em todos.

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