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Ben Wheatley dirige à partir do roteiro de Amy Jump, adaptado do livro de J. G. Ballard, um dos filmes mais citáveis do cenário recente num conto social de decadência.  Explorando a humilhação do “homem-comum” perante um mundo que não foi feito para ele, High-Rise (2015) se estabelece como um forte marco na ficção científica do cinema atual – apesar de adaptado de uma obra de 1975 – ao usar da estranheza e da violência como exagero ao retrato social.

Como todas as pessoas pobres, ela é obcecada por dinheiro.

A apresentação de universo feita por Wheatley, algo de suma importância numa ficção científica, é concisa e ágil e em menos de dez minutos introduz a base do lugar, um edifício de magnânimas proporções, cuja descoberta por completo é justamente um dos pontos da trama, por isso a boa escolha de Jump e Wheatley em apresentarem vaga e brevemente os pilares do ambiente – o único do filme aliás, em mais uma sábia decisão de não expandir em excesso o roteiro. A estranheza dos personagens, que curiosamente vão se desalinhando com a trilha sonora de Clint Mansell, que varia, em composições originais e insertos, do clássico ao pop experimental, e a banalidade das situações e a efemeridade e plasticidade das coisas rimam com a introdução do mundo, servindo não somente como essa apresentação, mas se estendendo também a uma profundidade que serve artisticamente à trama. De forma até apressada porém sóbria, o longa mostra um busca pela nostalgia fantástica, por exemplo, num retrato de uma depressão e a falsa noção de passado como classe, que vão evidenciando o vazio do gigante de concreto.

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Wheatley traz mais uma vez sua direção estilosa que já mostrava em obras anteriores, como no interessante A Field in England (2013), usando de símbolos evidentes, mas não menos belos, para pôr em imagens o consciente do Dr. Laing (Tom Hiddleston, de Amor Profundo e Os Vingadores), como nos quadros em que Laing se divide nas paredes de espelhos do elevador. Hiddleston, como sempre, parece feito para o papel e entrega a sutileza, desconcerto e violência do personagem de forma impecável. O seu encontro com personagens já dentro do ambiente repressivo do prédio traz uma dimensão da ruína que se aproxima nos rostos de Charlotte, mãe confusa, ausente e perdida interpretada por Sienna Miller (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo, Sniper Americano), Helen, outra mãe, dessa vez depressiva, encarnada por Elisabeth Moss (Rainha do Mundo, Garota, Interrompida), o violento e explosivo Wilder de Luke Evans (Drácula: A História Nunca Contada, O Hobbit: A Desolação de Smaug) e o arquiteto de tudo, Royal, na atuação de Jeremy Irons (Trem Noturno para LIsboa, Batman vs Superman: A Origem da Justiça). Esses, nos seus exageros e belas atuações, criam uma “mitologia”, um panteão da vida daquela sociedade à beira do precipício. Sociedade essa que, como bem diz o diálogo de Laing e Royal, encaixa seus indivíduos tão perfeitamente nos seus lugares que estes não têm mais a liberdade para fugirem de si mesmos.

A ficção científica retrô de High-Rise mostra uma dependência em “equipamentos”, em eletricidade, desnudando a tecnologia não como uma droga moderna, mas como aquele algo que “veio para solucionar os problemas que não existiriam se ela não existisse.” As imagens – inclusive a de um certo revolucionário argentino – causam uma falta de anacronismo curiosa que se traduz na atemporalidade visual e de conteúdo da obra, com a fotografia de Laurie Rose dando uma textura estilizada e esbanjando grafismo em cenas como as nas águas da piscina e em sequências com fumaça densa. A destruição é a força motriz da trama de High-Rise, trama essa que fica por uma boa parte do filme velada pelo talento visual de Wheatley – que é certamente, no mínimo, atraente, como quando flerta com a arquitetura – mas que sobrepõe o drama, que quando surge, no entanto, é com impacto, apesar de a agilidade lá do início sacrificar um tanto da simpatia para com os habitantes do edifício.

Quando a organização finalmente descende ao seu mínimo, vemos desmembradas as partes que compõem aquela sociedade, chegando ao ponto de ser feita uma “delegação ao supermercado” numa expressão da urgência comum que esse descenso ao térreo provoca. Vemos que as decisões são tomadas por superiores que não entendem realmente o que se passa nas entranhas dos andares inferiores e mesmo assim tentam se equilibrar em sua realeza. Aí está a “falta de anacronismo”.

No seu último ato, High-Rise se perde ao expandir e retrair em excesso a sua trama para fechar pontos que poderiam ter sido fechados antes, mas isso não escalda o poder do filme, que se ergue imponente como seu cenário numa importante obra. No seu fechamento, o discurso da Dama de Ferro dá uma veracidade à alegoria do reinicio que o filme provoca após o ápice do caos, mas High-Rise não é otimista, é assustador.

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