krigendestacada1

O cinema contemporâneo está em uma onda de realismo que chega a ser incômoda, principalmente o cinema de guerra, retratando na maioria das vezes questões políticas como principal ponto da trama, isso sendo, claro, um reflexo do mundo atual. As obras de guerra moderna, sobre conflitos modernos, como Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008), Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Dawn, 2001), A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), Soldado Anônimo (Jarhead, 2005), seguem ou a linha de filmes de ação, correndo o risco de parecerem vazios, ou tramas de conspiração e de relações internacionais, pecando muitas vezes na execução e falhando em tornar o retrato interessante.

Pai, é verdade que você matou umas crianças?

Guerra (Krigen, 2015), dirigido e escrito pelo dinamarquês Tobias Lindholm (Sequesto, R), começa como mais um filme na leva de Sniper Americano (American Sniper, 2014), mostrando a separação da família com o pai, Claus, muito bem interpretado por Pilou Asbæk (Sequestro, Lucy), na guerra e a mãe, Maria, também bem representada por Tuva Novotny (O Invisível, Slim Susie), cuidando dos três filhos do casal. Essa representação do combatente e de sua família, apesar de não ser original, apresenta uma verdade incomodativa pela sua boa representação, muito mais eficiente do que no já citado filme de Clint Eastwood, através do bom roteiro de Lindholm, que antes já havia trabalhado como roteirista em filmes de Thomas Vinterberg, a exemplo de Submarino (2010), do excelente A Caça (Jagten, 2012), além do vindouro The Commune (Kollektivet, sem título em português).

krigeninterna1

Lindholm consegue repassar a angústia de ambos os protagonistas, exibindo as tensões do soldado e da mãe em equivalente desespero e em imagens chocantes em realismo que demonstram o peso da responsabilidade de cada um deles. Nessa primeira metade da obra, vemos cenas de combate bem filmadas na tradicional câmera nervosa desse gênero e na fotografia limpa e desestilizada de Magnus Nordenhof Jønck, exibindo a guerra sem glamour e sem charme, mas nada de algum destaque, principalmente quando comparado com o que vem após.

As maiores qualidades do filme residem na sua segunda metade, quando questões éticas e legais entram na soma da responsabilidade de Claus, que é acusado depois de supostamente matar civis. Nessa parte, a capacidade de atuação e de direção da equipe é posta à prova, e todos correspondem com competência. Ao colocar na balança o peso de vidas inocentes perdidas na guerra, o custo para salvar uma vida e a extensão das consequências da responsabilidade, ou falta dela, o filme engrandece de forma até surpreendente. A maneira em que Lindholm induziu a soma desses fatores é extremamente eficiente e muito bem colocada, ao apresentar a cena do combate do suposto assassinato de um ponto de vista diferente, forçando o espectador a pensar além do que havia pensado até então, à ponderar sobre questões muito mais amplas e a se questionar sobre os limites da guerra e da lei.

Guerra não chega à ser um filme inovador em nenhum aspecto, mas sua crueza é no mínimo instigante, explorando um ponto não muito discutido nos “filmes de guerra”, pelo menos não de forma tão clara, e acaba por ser um filme que merece ser visto por trazer um frescor, mesmo que tímido, ao gênero que possui poucos filmes mas que frequentemente parece saturado. Já quanto à sua indicação para Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016, ela é discutível.

0 Total Views 0 Views Today