Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station -2013)

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O cinema independente é capaz de apresentar obras que desafiam nossa percepção, seja da realidade ou do cinema como arte. Realidade e arte comumente se mesclam, mas em raros esforços se fundem tão bem como na Sétima Arte, e os melhores exemplos disso residem no cinema artesanal, autoral, autêntico. Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station, Ryan Coogler, 2013) é um dos grandes exemplos disso.

São apenas 30 dias para para criar um hábito. Depois vira natural.

A estreia de Ryan Coogler começa com imagens reais captadas por cinegrafistas amadores do acontecimento real que o filme adapta. Os oitenta e cinco minutos da exibição terminam fazendo o mesmo, mas sem o desdenhoso clichê que permeia tantos dramas biográficos, fato de que o filme não retrata um herói, uma imagem idealizada, mas vidas comuns. O pouco tempo de filme é o suficiente para embeber o espectador em um mundo confuso, tenso e assustador. O roteiro de Coogler não poderia ser mais conciso e preciso ao contar a história de Oscar (Michael B. Jordan, de Poder Sem Limites e Creed: Nascido Para Lutar), sua namorada Sophina (Melanie Diaz, de Rebobine, Por Favor) e mãe de sua filha Tatiana (Ariana Neal, de O Durão) e de seus amigos no último dia do ano de 2008. A representação do cotidiano apresentada pelo cineasta e pelo competentíssimo elenco – com destaque para Michael B. Jordan, que prende e comove naturalmente – é estarrecedora, tanto no ambiente claustrofóbico como a câmera de Coogler, como nas lutas de seu protagonista, tendo que economizar e parecer bem com isso, ver morte e não ter para onde correr, se ver encurralado em desaprovação. Quando a mãe de Oscar, Wanda (encarnada pela impecável Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas), diz que ele não gosta de ficar sozinho, o filme nos faz lembrar do que a solidão traz ao personagem: um rosto fechado ao invés do sorriso compartilhado com a esposa e com a filha, a tristeza em contrário da alegria que exibia com os amigos, a revelação do que aquela realidade provoca.

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O mais incômodo no filme é como ele é real, quase como se Coogler tivesse pego sua câmera e filmado escondido um amigo seu. O oposto do que Spike Lee faz dentro do mesmo “cinema social”, Coogler espanta pela instigação de ver o que é de verdade e como é de verdade. Sua direção cheia de close-ups e movimentos rápidos dá uma autenticidade perfurante à película, e a fotografia bruta de Rachel Morrison captada em 16 milímetros dá uma textura de rapidez e improviso que ajudam ainda mais na credibilidade do filme.

Apesar de não ser algo original, de não reinventar um gênero, Fruitvale Station: A Última Parada sabe usar com maestria as vantagens do gênero e estilo em que se encaixa. Não é um filme bonito, é real, documental. Um filme onde a violência é usada como desculpa e chantagem por todos os lados da história. Um lugar onde a verdade é sufocante, fica entalada na garganta, acumula culpa. De novo, um filme que não é belo, mas que deve ser visto, um protesto do mais alto apelo.

NOTA: 9,0

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