The Flash e Gotham: Os caminhos opostos das séries da DC

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The Flash e Gotham. Duas séries com muitas coisas em comum. Ambas são da TV aberta, produzidas por CW e FOX, respectivamente; ambas têm suas raízes nas histórias em quadrinhos; ambas não são unânimes em sua recepção, dividindo opiniões tanto da crítica, quantos dos espectadores e ambas possuem o vertiginoso número de 22 episódios por temporada. Porém, é a diferença que ambas apresentam no momento que motivou esse texto.

The Flash se encontra atualmente no décimo quarto episódio da segunda temporada e vem apresentando um problema seríssimo de foco e desenvolvimento. Na temporada de estreia, The Flash passou por uma evolução narrativa comum a maioria das séries procedurais que querem manter o interesse do espectador por mais tempo. Em seus primeiros episódios se dedicou a história de origem, que intercalava vilões semanais com o período de descoberta e estabelecimento de Barry Allen como personagem e herói. Notando que essa fórmula cada vez mais tem curto prazo de validade, o show virou a chave na metade da temporada, passando a se preocupar mais em estabelecer uma mitologia maior, além de expor conceitos dos quadrinhos difíceis de ver em mídias audiovisuais, como multiverso e viagens no tempo.

E funcionou, mesmo mantendo os vilões da semana, a preocupação em criar um arco mais extenso se mostrou acertada, colaborando não só no aumento da relevância do show, como na evolução dos personagens. Cisco e Iris que o digam, foram os personagens que mais cresceram dessa guinada, a ponto de Cisco encerrar a primeira temporada sendo uma das melhores coisas da série. Por isso, The Flash encerrou seu primeiro ano em alto nível, com muitas opções de caminhos a seguir, um cliffhanger poderoso e um super herói muito bem estabelecido.

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Gotham, que está em hiato desde o décimo primeiro episódio da segunda temporada, teve um inicio de vida promissor e um decorrer problemático. A promessa de mostrar a investigação do assassinato de Thomas e Marta Wayne deu lugar a uma série de casos semanais construídos de forma estranha, falta de desenvolvimento de seu protagonista, excesso de tentativas de emplacar fan services e easter-eggs, e uma cara de série policial das mais genéricas possíveis. Apesar das ótimas participações de Oswald Cobblepot e Fish Mooney, foi uma temporada com mais baixos do que altos. Ainda mais depois do desfecho nada satisfatório dado a personagem de Jada Pinkett-Smith (que aparentemente vai retornar ainda nessa temporada). Gotham fechou seu primeiro ano com um bom episódio, mas com a nítida impressão de que prometeu e não conseguiu cumprir.

Mas algo aconteceu na virada entre as temporadas e tudo mudou. A segunda temporada de Gotham não só evoluiu a série, mas a transformou completamente. Saem as investigações semanais, entra um arco muito bem pensado que conseguiu unir todos os núcleos narrativos, que estavam completamente desconectados a essa altura. O surgimento de um novo grande vilão, ligado ao passado da cidade e a família Wayne, um vilão cerebral e manipulador (apesar de meio burro, ás vezes), também foi um diferencial. O jeito de mexer com as expectativas ao lidar com personagens importantes, como Jerome ou a Capitã Essen, mostrou coragem por parte dos roteiristas. Todos os personagens ganharam com a transformação da série, Jim Gordon evoluiu em seu caminho rumo á ruptura; Bruce Wayne e Alfred ganharam mais desenvolvimento, sendo que o primeiro roubou a cena em grande parte dos episódios; Coblepott mostrou que funciona muito melhor como um segundo vilão, que manipula em busca de derrubar o primeiro, do que como poderoso chefão, de fato; Edward Nygma finalmente mostrou quem é, e junto de Cobblepot viveu grandes momentos nessa mid season.

Enquanto isso, The Flash vive dias insossos e desanimadores graças à regressão que a série apresentou no seu segundo ano. Os casos semanais, que pareciam ter perdido sua importância, voltaram a imperar. Apesar de apresentar um inicio grandioso, com o retorno de Harrison Wells, o surgimento de Jay Garrick e Zoom e a descoberta da Terra 2, os quatorze episódios desse ano simplesmente não fizeram a trama andar. Esse décimo quarto episódio serviu para resumir os problemas da série, trazendo todos eles de uma vez. O vilão Geomancer, que apareceu pela segunda semana consecutiva, definitivamente não tem motivos para existir. Suas motivações são inexistentes, bem como sua origem. Seus poderes são mal trabalhados e a resolução de seu micro-arco é ridiculamente previsível. Por falar em motivações, esse vem sendo um dos grandes problemas apresentados. Nenhum personagem mantém sua posição a respeito de nada por mais de cinco minutos. Barry 1 e 2, Jay Garrick, Iris e Wally West, Caitlin-2, Harrison Wells e Cisco estão constantemente mudando de ideia, com o simples intuito de gerar momentos com diálogos emocionais carregados de clichês e pieguice.

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Não é difícil perceber o que diferencia as duas séries nesse momento: o tipo de narrativa. Gotham percebeu que seguir trabalhando com casos semanais é um imenso desperdício de potencial, coisa que The Flash ainda não descobriu. O grande gerador desse problema é o número de episódios por temporada. É muito tempo para desenvolver uma trama coesa com começo, meio e fim. É inevitável não preencher as lacunas com histórias avulsas, mas é preciso dosar muito bem o tempo dedicado aos dois tipos de episódio, coisa que The Flash nem de longe consegue fazer. A solução encontrada em Gotham, e que pode muito bem ser aplicada a The Flash, foi não só abandonar os casos semanais, como dividir a temporada ao meio. Isso já é feito em termos de transmissão, mas Gotham passou a trabalhar essa divisão em termos de arco dramático. Poderíamos facilmente considerar essa primeira metade como a segunda temporada, e a segunda metade como a terceira, já que as tramas apresentadas tiveram seus desfechos e uma nova gama de caminhos vai se abrir daqui em diante, mostrando que os showrunners sabem para onde querem levar o show.

The Flash vem apostando demais no fan service e nas referências, e dando bem pouca importância a história. A identidade de Zoom e do homem mascarado não serão o suficiente para manter o espectador interessado por muito tempo se seus problemas de desenvolvimento não forem corrigidos. Torçamos para que essas viagens pelas infinitas terras façam com que o Flash de uma passada em Gotham City e aprenda alguma coisa, antes que série comece a entrar em crise.

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