Ensaio sobre a Cegueira – O livro, o filme, a obra prima

Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira

Assisti ao filme há algum tempo, li o livro recentemente. Revi o filme e já estou com vontade de reler o livro…

Exagero? Não sei, pode ser. Mas obras tão extraordinariamente escritas são capazes de nos tocar de formas diferentes cada vez que lemos. É como se sempre houvesse algo escondido, inédito. E é isso que torna essas obras maravilhosas e atemporais.

No caso de “Ensaio Sobre a Cegueira“, Saramago nos dá um soco no estômago com sua narrativa e é IMPOSSIVEL ficar indiferente a ela. É Saramago sendo Saramago <3

Imagine que você está no seu carro, à espera de abrir o farol e, de repente, não vê mais nada. É assim que esta história se inicia e te cativa desde a primeira linha – ou primeiros minutos de cena.

A partir daí, há uma epidemia, chamada de “mal branco”, pois, diferente da cegueira comum, onde se enxerga a escuridão, esta causa uma visão branca, como se estivessem “mergulhados em leite”.

Diante de tal epidemia, os governantes, em pânico, tomam medidas extremas e isolam os novos cegos em quarentena, dentro de um hospício abandonado. E o abandono continua com seus novos habitantes, que são despejados lá dentro sem o mínimo de condições humanas. E então, vemos a humanidade ruir, a moral desaparecer e todos os problemas decorrentes disso, que vocês podem imaginar.

E assim vamos acompanhando esse processo de decadência pelos olhos da personagem “esposa do médico” (nenhum deles é nomeado), que, por algum motivo não explicado, é a única que enxerga em meio a essa tragédia.

A comparação entre livro e filme é inevitável, claro, mas, por favor, não me venham com mimimi de que “o livro é melhor que o filme”, porque isso é conversinha de pseudointelectual chato. Uma pessoa coerente sabe que há diferenças entre os dois tipos de Arte, e que existe a necessidade de modificações e adpatações por motivos variados (comerciais ou não).

>Fernando Meireles tem minha eterna admiração pelo que fez em Ensaio sobre a Cegueira. Adaptou lindamente a história e nada de sua essência foi perdida. As transições de cena são fabulosas, quase nos passando o “ponto de vista” dos cegos. Sim, soa absurdo, mas é isso que ele consegue fazer, utilizando muitos jogos de luz e sombra e uma pitadinha de genialidade!

Também é muito divertido ver as cenas de fora do hospício, algumas feitas aqui no Brasil. Ver pontos icônicos de São Paulo – como a ponte Estaiada e a região do centro, sempre tão lotada – vazios e abandonados, dignos de um apocalipse zumbi, é algo inédito para nós, e creio que essa familiaridade nos envolva ainda mais no drama.

Gael-Garcia

Não se deixe enganar por essa carinha de bom moço

As interpretações são ótimas e envolventes, até mesmo a do Hulk de De Repente 30. Destaque para Gael Garcia Bernal, que faz um vilão tão fantástico, tão nojento e monstruoso que até nos faz esquecer seu rostinho bonito e aplaudir sua bela atuação, mesmo com um embrulho no estômago…

A sensação de sujeira do hospício, as roupas encardidas ou rasgadas ou inexistentes, cenas de pés pisando um chão de banheiro utilizado por cegos (pensem!), fazem a gente quase sentir o cheiro daquele lugar. Junte isso a cenas de conversas sem seus interlocutores estarem frente a frente, casais fazendo sexo em qualquer canto, brigas com socos disparados no ar e percebemos o quão perdidos estão todos. Física e mentalmente.

Cegos, somem os pudores, a decência, a vergonha. E quando a comida passa a ser insuficiente, a própria humanidade é colocada em questão.

É claro que no livro esses conflitos nos atingem mais profundamente, até porque, há a nossa participação como leitor na construção desse universo caótico. Mas mesmo assim, Meireles soube expô-los muito bem em seu filme e saímos do cinema / sofá com aquele amargo na boca, ruminando os acontecimentos, pensando na fragilidade da sociedade como conhecemos.

No livro, percebemos a animalização – ou zoomorfização – das personagens. De forma gradativa, as pessoas vão se desfazendo de costumes, hábitos e conceitos morais. E isso fica ainda mais evidente quando o autor usa expressões como “relinchar” ou “dar patadas no chão”.

É impossível não refletir sobre o quão tênue é a linha que separa nossa civilidade da nossa selvageria.

Cegos, imundos, abusados, torturados, abandonados e famintos. Muito famintos. Nessas condições, até quando nos manteríamos humanos?

E qual seria a responsabilidade daquele que se mantiver são entre os loucos? Pois não devemos nos esquecer de que há uma mulher em meio a este cenário dantesco que pode enxergar.

Enquanto todos sofrem com o cheiro morrinhento do ambiente, sentem a viscosidade do chão, ela, além de tudo isso, também pode ver. Vê as montanhas de lixo e excrementos de onde sai o fedor. Vê o sangue, a urina, as fezes, o vômito, o suor que cobrem o chão em que pisa, a cama em que dorme, a roupa que veste e o marido que ama, de quem cuida devotamente.

Cão das Lágrimas

E acaba cuidando de tantos outros quanto pode, até não ter mais forças.

Assim, Saramago nos força a pensar não só na podridão das pessoas, mas principalmente na responsabilidade de quem pode enxergar onde todos estão cegos.

Nem preciso dizer que o livro é sensacional e que você deve parar o que está fazendo e lê-lo. Agora mesmo. Ninguém pode passar a vida sem ler as sábias palavras deste velhinho com cara de ranzinza e intelecto raro!

Ah! Além da minha admiração, Meireles tem também toda minha inveja e recalque. Ao fim da 1ª exibição do filme, diante da aprovação – e emoção! – de Saramago, o diretor deu-lhe uma bitoca na testa! #invejaparasempre #saramagoseulindo

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