Em Enquanto Somos Jovens (While We’re Young, 2014), Noah Baumbach, que já ostenta o título de “Indicado ao Oscar” pelo roteiro original de A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 2005), expõe com claridade o conflito de gerações, flertando com temas por vezes triviais, mas de contemporânea pertinência. Na sua característica direção simplista, o cineasta exibe as “mazelas” de um tempo em que uma geração tenta impressionar a outra ao invés de ser exemplo e a segunda tenta ludibriar a primeira ao invés de assimilá-la, de um tempo onde o CD é defasado e o vinil é moderno, um tempo de dúvida entre afirmar-se ou mudar com o mundo.

Parece que o apartamento deles é cheio de coisas que jogamos fora, mas fica tão legal do jeito que eles arrumam.

O expositivismo de Baumbach deixa o longa com um ar descompromissado. Seu texto e condução, aliados as boas interpretações de Naomi Watts (Cidade do Sonhos, King Kong) e Ben Stiller (Trovão Tropical, Zoolander), rendem cenas divertidas e fluídas, onde basta ao diretor fixar sua câmera em um medium-shot e deixar a cena emanar. O mesmo acontece com o crescente Adam Driver (Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum, Frances Ha) e Amanda Seyfried (Mamma Mia!, Os Miseráveis) que, assim como o casal mais experiente, demonstram boa interação. Mas essa exposição clara deixa também espaço para sutilezas que recheiam o longa, a exemplo das referências à filmes – os personagens de Driver e Stiller são cineastas – que devem divertir os cinéfilos, como o “Love Theme” da trilha sonora de Blade Runner (1982) de Vangelis tocando em ritual xamânico.

O tema da película também não se atém ao clichê em que poderia cair. Discutindo e sentimento de falsa liberdade do casal Josh (Ben Stiller) e Cornelia (Naomi Watts) pelo fato de não terem filhos, o filme questiona do que a liberdade é composta. Falando de velhas amizades – tema aprofundado por Noah no recente Frances Ha (2012) – o filme pergunta quando é hora de estagnar e aceitar a vida. Em outro ponto comum com a obra de 2012, Enquanto Somos Jovens discursa sobre a dificuldade de envelhecer bombardeado por jovens, enquanto Frances Ha fala das mudanças que implicam em “ser jovem”, e ambos convergem no recorrente tema da liberdade e se ela se faz de escolhas ou surpresas.

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As “opostas” gerações (ênfase nas aspas) conflitam-se cada uma do seu modo. A mais experiente sente que está sendo roubada enquanto a mais nova manipula. A mais nova acha que está correta enquanto a mais velha brada que no seu tempo era diferente. Mas, se cortarmos os meios e irmos direto ao fim, é tudo o mesmo. “Eu quero ser intransponível” é uma frase dita pelos jovens, mas que os mais velhos não dizem, só sentem. “Como vamos envelhecer?”. Simples: “Como todo mundo.”

Quando no último ato Baumbach brinca com as várias camada de humor e drama de sua obra, em uma cena de suave dramaticidade teatral de discussão com direito a fogo, onde ao fundo se ouve enfática música lírica, interpele ao espectador e expõe a semitangente metalinguagem que involucra o longa. Um exercício de quase manifesto de um jovem cineasta de mais de 45 anos, que significa muito mais aos olhos atentos.

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Avaliação.
Ótimo

Eduardo Henrique Kroth

Novo por aqui, mas já digo que não sou o droide que você está procurando, apesar de ser parecido com um certo droide de protocolo...

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