Tento puxar da memória alguma vez em que essa ladainha de se reimaginar uma história infantil ou juvenil como algo sombrio e adulto tenha dado certo e não consigo. As histórias sempre acabam em um meio termo blasé e facilmente ignorável, onde se perde o encanto infantil, mas não se alcança uma complexidade adulta. Era óbvio que não seria diferente com Emerald City, releitura dos clássicos livros L. Frank Baum.

Emerald City é o tipo de série onde cada detalhe é um obstáculo a ser vencido com bastante esforço. A começar pela premissa básica. No inicio do século XX, quando a obra foi publicada, ou já nos anos 30, quando o filme estrelado por Judy Garland foi produzido, a estrutura de personagem mediana que sai de seu universo para se descobrir especial em outro lugar era até inovadora, mas hoje em dia é um conceito muito familiar, que para ser aceito precisa ser muito bem trabalhado, o que obviamente não é o caso aqui.

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E se você conseguir relevar essa familiaridade inicial, passamos ao segundo obstáculo, a familiaridade de contexto. Ao invés de trilhar seu próprio caminho, Emerald City prefere selecionar referencias a obras que estão em voga, temos um pouco de Game o Thrones aqui, um Once upon a time acolá, pitadas de The Magician. Fica muito claro que a série é fruto de uma pesquisa de mercado e não de uma mente criativa. Emerald City é a série que nasceu para viver de migalhas de outras obras. Você gosta do filme X ou da série Y, então veja Emerald City, não por que é bom, mas por que é parecidinho.

E para isso a série abusa dos gatilhos de interesse mais fajutos possíveis, como os pares românticos que surgem de forma mecânica, afinal, se o fandom consegue sustentar séries por anos a fio “shippando” casais aleatórios, vamos dar casais aleatórios para eles e tudo vai dar certo. Ou o estilo George R.R. Martin, onde personagens que parecem bem importantes morrem sem aviso prévio para misturar choque com engajamento na cabeça dos espectadores. O problema é que Emerald City não parece entender que só se “shippa” um casal com o qual você se importa, só se choca com uma morte de alguém com quem você se identifica. Salpicar o roteiro com transas e assassinatos não é o suficiente para vender o seu peixe.

Mas sejamos honestos, nem tudo é ruim e falso em Emerald City. Os valores de produção da série são muito bons. Todo o cuidado que não se tem no roteiro, pode ser visto na parte visual, nos cenários de Oz, nos figurinos coerentes e nos efeitos visuais que estão bem acima daquele CGI mequetrefe que se espera da TV aberta americana. Há também bons nomes no elenco, bons o suficiente para você se perguntar o que eles estão fazendo ali. Nomes como Vincent D’onofrio como Mágico de Oz e Fiona Shaw, por exemplo.

Nos três primeiros episódios, não há palavra que defina melhor Emerald City do que genérica. É uma obra genérica, que aposta na conversa fiada de reinventar uma história, mas que substitui toda a essência do original por dispositivos de mercado. Temos uma Dorothy sem carisma, um espantalho sem camisa e um reino mágico sem encanto em uma história que deixou de ser infantil, mas não se tornou adulta, pois se perdeu na adolescência, onde nada ao redor faz sentido e tudo é chato e desinteressante

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Vinicius Salazar

Um estudante de história de 23 anos que ama filmes, bons e ruins, e acha que tem algo a dizer sobre eles.

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