Doom Patrol já é a melhor série baseada em quadrinhos da atualidade

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“Ugh, mais uma série de TV sobre super-heróis. É tudo o que o mundo precisa agora.”

Ironiza Eric Morden na primeira frase do primeiro episódio de Doom Patrol, antes de explicar ao espectador que o que viria a seguir não era bem uma série sobre super-heróis, mas sobre um grupo de perdedores, patéticos e tão dignos de pena, que talvez fizessem você mesmo se sentir melhor a respeito da própria mediocridade depois de assistir.

Soa um pouco pretensioso, não? Até soa, mas acredite, vale a pena.

Doom Patrol é a segunda série original do serviço de streaming DC Universe, que fora apresentada ao público num episódio da primeira temporada de Titans, ainda no ano passado, e não é exagerado dizer, foi uma das coisas mais cativantes daquela série. Mesmo assim a expectativa não era das maiores, pelo resultado irregular de Titans, por um certo desgaste da temática de heróis na TV e principalmente por ser DC. Como na fábula do jovem pastor e do lobo, a DC nos enganou tantas vezes, que quando eventualmente estiver falando a verdade, pouca gente vai querer pagar pra ver.

A série nos apresenta um grupo de pessoas que, por várias causas, incluindo acidentes, encontros com seres interplanetários e/ou dimensionais, traumas pessoais pesados ou tudo isso junto, estiveram à beira da morte até serem salvos por Niles Caulder, o Chefe. Um cientista que dedicou a sua vida a investigar o estranho e incomum, ajudando aqueles que fossem acometidos por “anomalias” de qualquer tipo, acolhendo-os em sua mansão isolada (parece familiar). Esse grupo de párias é formado por Cliff Steele, um piloto de corridas que sofre um grave acidente e tem seu corpo destruído, mantendo-se vivo apenas ao acoplar seu cérebro a um corpo totalmente robótico; Rita Farr, uma diva da era de ouro do cinema, que ao entrar em contato com uma substância misteriosa, perde o controle da densidade de seu próprio corpo; Larry Trainor, um piloto da força aérea, que durante um voo encontra uma entidade cósmica radioativa, que passa a tê-lo como hospedeiro; E Jane, uma paciente psiquiátrica que tem 64 personalidades.

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O que tira esses personagens da calmaria é o desaparecimento do Chefe, supostamente sequestrado por um velho inimigo. E é aí que entra a figura do Ciborgue Victor Stone, jovem herói problemático, postulante a uma vaga na Liga da Justiça, que tentará ajudar esse grupo de esquisitões sem nenhuma vocação pro heroísmo a descobrir o paradeiro de seu amado mentor. E se nesse momento você estiver pensando “grupo de esquisitos que é obrigado a agir como heróis, mesmo sem querer ou saber como? Eu já vi isso.” Saiba que os clichês evocados pela premissa acabam aqui mesmo.

O adjetivo mais apropriado para a primeira temporada de Doom Patrol é diferente, começando pela sua estrutura. Analisando a vasta oferta de séries baseadas em quadrinhos de herói, vamos notar duas formas predominantes de execução de narrativa, que podemos resumir como o modo CW e o modo Netflix. No modo CW, o arco da temporada é desenvolvido a conta gotas, em vinte episódios com histórias individuais (e sempre muito parecidas) com começo, meio e fim que contribuem muito pouco pra trama principal.

O modo Netflix, por sua vez, aposta na lógica de “filmes de 10 horas”, diluindo homeopaticamente a trama principal em dez ou treze episódios, que são nada mais do que a quantidade de cenas que couber em divisões de quarenta minutos. Basta pensar nas grandes séries de TV, como Sopranos, Lost, Breaking Bad e até mesmo Game of Thrones (apesar do desfecho tão criticado) para reconhecer um padrão na execução da narrativa que não se parece nem um pouco com os modelos citados. Essas séries têm uma noção muito clara do que deve ser um episódio, uma peça da história que funcione individualmente, avance a trama principal, mas não ofereça um desfecho simulado ou se renda a cliffhangers fajutos. E Doom Patrol entende muito bem isso.

Doom Patrol -- Ep. 102 -- "Donkey Patrol" -- Photo Credit: Bob Mahoney / 2018 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved.

Outro elogio que se deve fazer baseado na diferença de Doom Patrol para produtos do seu tipo, falando aqui especialmente de Titans, sua predecessora nesse universo, está na importância dada aos protagonistas da história. Enquanto Titans foge de desenvolver seus protagonistas para investir em uma apresentação de contexto e personagens secundários, Doom Patrol é focado na construção de seu quinteto principal. Usando interações entre eles, contato com coadjuvantes e flashbacks muito bem colocados, cada personagem é desenvolvido de forma convincente, tornando-se absolutamente tridimensionais, mudando e evoluindo com o passar dos episódios.

Nota-se uma versão bem intensa de ‘um conto de natal’ na construção dos personagens, pois temos pessoas que sentiram o gosto do sucesso, da vida perfeita – Cliff fora uma estrela do automobilismo, Rita do cinema, Larry era um respeitado militar, Victor um proeminente atleta juvenil – mas não eram exatamente boas pessoas, até que perderam quase que literalmente tudo, suas carreiras, suas famílias e até mesmo seus corpos e sua época, e só assim aprenderam a valorizar o lugar a qual pertencem e as pessoas a sua volta.

Parece meio triste? E é. Na essência Doom Patrol fala muito sobre medo, tristeza, aceitação e segundas chances, mas envelopando esse drama todo está um senso de humor absolutamente bizarro e surreal, que começa com um narrador autoconsciente que conduz, interfere e zomba da história que está contando, e vai até uma barata que acredita ser o novo messias. E acredite, isso está longe de ser a situação mais non-sense da temporada.

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A qualidade de Doom Patrol também está aliada a um desempenho espetacular do seu elenco principal, formado por Alan Tudyk, Diane Guerrero, April Bowlby, Matt Bomer, Joivan Wade, Timothy Dalton e, já que falamos de segundas chances, Brendan Fraser. Que baita retorno, Brendan Fraser. O trabalho de dublagem dele e de Matt Bomer é incrível, passam todas as variações emocionais e nuances de personalidade de dois personagens bastante complexos apenas usando a voz. April Bowlby também merece destaque, constrói uma diva de outra época de forma totalmente convincente.

Doom Patrol entrou com certa facilidade no rol de melhores séries baseadas em quadrinhos. É engraçada, surreal, criativa, não se leva a sério demais, tem personagens bem construídos, tecnicamente apresenta soluções de fotografia, movimentos de câmera e efeitos práticos que driblam o orçamento baixo e reforçam o talento dos envolvidos no projeto. São quinze episódios que valem cada minuto do seu tempo.

Doom Patrol deve chegar ao Brasil no segundo semestre pela HBO.

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