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O “cinema policial” já nos deu filmes memoráveis em tons e estilos que variam da comédia escrachada ao puro e pesado drama. Gênero amplo que oferece tantas possibilidades, chega a ser heresia condenar o estilo como “morto” ou somente uma sombra do que já foi e fez, ainda mais quando nos deparamos com obras como Dois Caras Legais (The Nice Guys, 2016). Seguindo uma leva recente de excelentes filmes que continuaram a afirmar o gênero nos altos patamares do cinema, o novo filme de Shane Black (Beijos e Tiros, Máquina Mortífera) sabe muitíssimo bem o seu lugar. Fixando-se como uma comédia de dupla de policiais, se entranha no mais comum de um gênero que acusam de saturado, e se destaca com lucidez até incomum dentro de sua proposta.

Você sabe quem mais só estava seguindo ordens? Adolf Hitler.

A obra narra a estória de dois detetives que se unem para investigar o suposto caso de assassinato de uma estrela da indústria pornográfica da Los Angeles dos anos 1970 (Misty Mountains, interpretada por Murielle Telio), após se “esbarrarem” enquanto investigavam um caso com elementos em comum. Não é tão fácil dar uma sinopse do longa, que usa de casos entrelaçados e outros componentes e artifícios presentes nos clássicos do gênero para criar a tradicional atmosfera de conspiração e paranoia que rodeia os filmes ambientados nesse tempo. Seus protagonistas, Jackson Healy, maravilhosamente bem interpretado por um Russel Crowe (Gladiador, Los Angeles: Cidade Proibida) acima do peso, e Holland March, incorporado com uma destreza e precisão ímpares por um Ryan Gosling (Drive, A Grande Aposta) atrapalhado, demonstram desde a primeira e delineadora cena de ambos um encaixe excelente em seus papéis, cenas estas que são Healy (amargurado, violento, ex-alcoólatra) agredindo um delinquente e March (estabanado, sensível demais para a profissão) acordando vestido de terno dentro de uma banheira cheia d’água. Essa apresentação rápida e perfeita cativa desde os primeiros minutos e segue um crescendo ao longo da trama, a medida que nos afeiçoamos mais pelas facetas dos personagens. O carisma dos dois, principalmente como dupla, é impecável.

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Black conduz seu filme com lucidez e não deixa a mão pesar na direção, trabalhando com boa execução os momentos de diferentes calibres do filme e sabendo dar importância aos momentos chave sem se perder na facilidade cômica, entregando conteúdo, comédia e ação na medida certa. Seu roteiro, escrito também por Anthony Bargarozzi consegue tirar ótimo proveito do seu elenco, que conta ainda com Matt Bomer (O Preço do Amanhã, Magic Mike) como o assassino John Boy e Kim Bassinger (Batman, 8 Mile: Rua das Desilusões) como Judith Kettner (funcionário do Departamento de Justiça e uma das contratantes dos investigadores) e a química deste. Centrar uma comédia em um “mundo de pecado” não é fácil pela tênue separação entre o engraçado e o grotesco, mas os roteiristas conseguem fazer tudo fluir com naturalidade, até na perigosa inserção de uma criança como parte importante da trama, Holly March (Angourie Rice), filha de Holland, que além de exibir excelente química com os protagonistas faz da relação no mínimo peculiar com seu pai um dos pontos fortes da película.

Dois Caras Legais não se atém em superficialidade e até flerta com certa profundidade com o personagem de Crowe, que solta frases sentimentais sobre seu passado, na já citada relação de March e sua filha e em seu plano de abertura, que exibe um letreiro de Hollywood em ruínas com a mega cidade ao fundo, dando um subtexto interessante à comédia. O ótimo tempo da comédia, que usa dos arquétipos dos personagens muito bem e o roteiro bem amarrado e atraente não deixam o filme se arrastar durante seus 110 minutos de projeção, tornando cada sequência fluida e interessante, por mais previsíveis que algumas sejam – apesar de o filme reservar algumas surpresas.

Um dos pontos fortes da obra de Black sem dúvida é a homenagem que presta. Se assemelha a muitos clássicos, mas fica clara a “emulação” (digo isso no bom sentido) que Black faz de Paul Thomas Anderson ao misturar o clima de dois filmes do diretor: Boogie Nights – Prazer Sem Limites (1997) e o recente Vício Inerente (2014) e de resgatar algo do Philip Marlowe de Elliot Gould no ótimo Um Perigoso Adeus (1973) do mestre Robert Altman, além do espetacular Los Angeles: Cidade Proibida (1997) de Curtis Hanson – filme do qual Russel Crowe praticamente repete seu figurino em um flashback rápido. O filme objeto desse texto é, claro, mais suave e inocente do que os citados, mas usa de elementos parecidos para criar um humor crível, a exemplo do que fazem também os Irmãos Coen em vários de seus filmes. Falta a Black a maestria de condução de Paul Thomas Anderson, Altman, Hanson e dos Coen, mas o clima está lá, embalado pela fotografia de Philippe Rousselot e pela trilha sonora original de David Buckley e John Ottman que se arranja muito bem com a indispensável trilha de sucessos da época, completando a atmosfera nostálgica e imersiva do filme, que até parece ter sido feito nos anos 1970, tão grande é o esmero de seus realizadores.

Dois Caras Legais se destaca pela sua ótima realização e brilhante dupla de protagonistas, que arranca risos com extrema facilidade. Sabe a que veio pois não tenta se engrandecer sobre frágeis alicerces, mas usa esses alicerces já calcificados como uma de suas vantagens. Em uma indústria em que obras muito inferiores a essa ganham franquias, torçamos para que possamos encontrar March e Healy mais vezes e termos a chance de conhecer melhor personagens tão divertidos.

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