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A estreia de Tom Ford nos cinemas inicia com uma cena de estética admirável. Uma sequência submersa de George Falconer, personagem de Colin Firth, afogando-se e tentando desesperadamente alcançar socorro. Uma cena de extrema beleza, mas essencialmente triste. E é isso que define a obra Direito de Amar (2009), onde até as coisas mais horríveis tem seu lado belo.

Se for um mundo sem tempo para sentimentos, então é um mundo em que não quero viver.

Após a perda de seu amante Jim, vivido por Matthew Goode, o Professor George Falconer encontra-se em depressão profunda, vivendo de lembranças de seu amor passado e passando melancolicamente por cada dia, esperando a chegada do momento final. A grande casa de vidro em que vive é fria, solitária. Vemos a sombra do ser humano que ele um dia foi, recordando de seus vívidos momentos que ficaram para trás. Sua vida agora se resume a isso, vestir-se e fazer o papel que lhe é designado. No seu trabalho, sente-se desnecessário e obsoleto, encontrando distração em alguns poucos olhares e vagos momentos de clareza. Justamente num desses momentos está um dos pontos mais interessantes da película, onde a divagação sobre o medo como maior inimigo do ser humano se torna o assunto da classe de George, fazendo uma analogia entre o momento de George e o momento de tensão em meio a Guerra Fria. Mas este, sem receber a atenção dos alunos, sente novamente o isolamento e a inutilidade. Nada mais o entretém, nada mais o contagia. Vive vagando em busca de algo que há muito perdeu, mas no fundo sabe que não encontrará.

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A poesia do longa é admirável em sua beleza e profundidade. O roteiro de Tom Ford, adaptado da obra de mesmo nome de Christopher Isherwood, é muito competente em sua constituição e narrativa, valendo-se muito bem dos flashbacks memoriais do protagonista. Mas o maior destaque é da direção extremamente segura e elegante de Ford, usando de belíssimos close-ups extremos onde, pela sensibilidade de suas lentes, é possível praticamente sentir o mesmo que George, e da espetacular fotografia de Eduard Grau, capturada em formato de filme analógico, que juntas criam uma graça e beleza ímpares, usando a última de leves nuances e trocas de cor em diversos momentos da exibição, saindo dos frios tons de azul e suavemente passando para os quentes tons alaranjados e avermelhados quando George consegue sentir algo além de sua tristeza e melancolia, como quando encontra em Kenny, seu aluno interpretado pelo jovem Nicholas Hoult, alguém que lhe dá valor, alguém que lhe entende, alguém invisível assim como ele. Tudo isso, aliado a maravilhosa atuação de Colin Firth e do competente elenco, que conta ainda com Julianne Moore fazendo uma ex-amante e agora amiga de George, cria uma atmosfera pesarosa, mas com momentos de alívio e leveza, ainda que quase sempre interrompidos pelo desalento do personagem principal.

Alguns equívocos na segunda metade do longa são o seu único defeito, onde as contundentes ponderações quase dão lugar a clichês, mas de forma alguma apagam seus méritos. O resultado que vemos ao final é uma obra de extraordinária beleza visual, ora um filme feito por um estilista não poderia ser diferente, mas que não se atém a sua aparência e a explora com pungência, com uma tristeza latente e tangível exposta pela direção e atuação excelentes e a ótima trilha sonora clássica de Abel Korzeniowski. É, afinal, uma obra admirável em todos os seus aspectos. E quando do momento terminal, na epifania de George, temos a certeza de que o que vimos não se resume ao agora. Mas, de qualquer forma, sem se preocupar com o presente, esse momento virá, e a única coisa que poderemos fazer será tentar nos agarrar nos nossos momentos de clareza, deixando o silêncio abafar todos os ruídos.

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