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No meu artigo de primeiras impressões sobre ‘Wayward Pines’, deixei claro que a série parecia ter muito mais qualidades do que defeitos, mas mesmo assim ainda não estava plenamente convencido de que poderia ser algo de grande valor. Citei meu cinismo adquirido com outras obras de mistério e o implacável fator ‘Lost’ para justificar o “pé atrás” com a obra. Hoje, depois de ver e rever a minissérie tenho que dizer que essa talvez seja a série de maior relevância que eu vejo em muito tempo. Eficiente em praticamente todos os seus aspectos, o show baseado na trilogia literária de Blake Crouch e produzido por M. Night Shyamalan se estabeleceu nesses dez episódios como algo que vai muito além do entretenimento, abordando competentemente temas complexos e interessantes.

A série se inicia mostrando o agente do serviço secreto, Ethan Burke (Matt Dillon), que estava se encaminhando para uma cidadezinha no estado de Idaho, junto de seu parceiro, para investigar o desaparecimento de outros dois agentes. Após sofrer um acidente de carro, Ethan acorda sozinho na entrada da cidade do título, e após perambular pelas simpáticas ruas do local, percebe que não há como se comunicar com ninguém de fora e nem mesmo deixar a cidade. A premissa e a construção dos primeiros episódios trazem a memória séries consagradas, como ‘Twin Peaks’, ‘Além da Imaginação’ e até o próprio ‘Lost’.

Mas antes mesmo da metade da série percebemos que ‘Wayward Pines’ é diferente, sei que essa frase pode afastar muita gente, mas:

“Não é sobre o mistério, é sobre os personagens.”

Calma, eu explico. Diferente de ‘Lost’, onde essa frase foi encarada como desculpa para a ausência de respostas satisfatórias, em ‘Wayward Pines’ significa outra coisa. Existem respostas coerentes para as perguntas, na verdade acho que a frase correta seria: “Não é sobre o mistério, é sobre a humanidade”. A série usa o mistério como ponto de partida para explorar algumas questões de cunho filosófico sobre as pessoas e a sociedade, mostrando nesse ponto a mão de Shyamalan no projeto. Impossível não remeter ao filme ‘A Vila’, que parte de uma premissa semelhante, mas acaba indo para outro lado. Sim, a identidade de Shyamalan está aqui. Nos convencer que estávamos indo em uma direção e no meio do caminho nos revelar suas verdadeiras intenções foi um dos trunfos de ‘Pines’. A revelação do grande mistério ainda no quinto episódio deu aos roteiristas o poder de mexer com o que eles quisessem.

Antes do episódio cinco tivemos uma série guiada pelo mistério, um herói em busca da verdade e de uma certa redenção, situações inquietantes e coragem para não poupar personagens importantes. As coisas estavam bem, apesar de cair no lugar comum das tramas de mistério. Depois do quinto episódio, chamado ‘The Truth (A Verdade)’, passamos a não saber pra onde íamos. As dinâmicas dos personagens e da própria história estavam abertas para transformações de perspectiva, o que tornou tudo ainda mais desafiador.

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Até onde vai o preciosismo dos seres humanos? Seríamos capazes de se opor a uma das verdades inexoráveis desse planeta, caso pudéssemos prever suas consequências? Uma verdade que passou por tantas dificuldades para se estabelecer? Partiria de um cientista a iniciativa de se opor, realmente, a evolução? Essas questões nos são apresentadas logo que descobrimos o segredo por trás de ‘Wayward Pines’. E depois delas surgem outras reflexões tão complexas quanto. Qual é o preço e será que vale mesmo a pena, lutar pela conservação de um mundo que, segundo as leis e o curso da natureza, não deveria mais existir?

No meio de todo o crescimento e desenvolvimento de seus personagens, de todas as ambiguidades de seu roteiro, a série ainda encontrou tempo para abarcar temas como liberdade, autoritarismo, a vontade de brincar de deus, violência e principalmente, medo. O medo constrói o mais tenebroso dos ciclos da cidade. Ethan descobre o motivo de ninguém poder sair de lá, mas ainda condena os métodos de “persuasão” utilizados para convencê-los disso. Porém, com os planos de fuga sendo executados e causando mortos e feridos, ele percebe que tem que convencer os outros a não querer fugir, e que o modo mais eficiente é através do medo e da violência. Eu não quero revelar tanto sobre a trama, mas isso aliado a outros fatores formam um dilema praticamente impossível de ser quebrado sem que hajam consequências drásticas, e é fascinante assistir a isso.

‘Wayward Pines’ é uma série que entrará para aquele rol de obras negligenciadas pelo público em seu lançamento, mas que provavelmente terá seu valor altíssimo reconhecido no futuro. É muito bem produzida, tem ótimos atores e um roteiro que sabe trabalhar com suas distintas e ousadas propostas. Faz analogias excepcionais e sabe metaforizar temas de alta complexidade e relevância. Vale muito a pena ver.

 

Nota: 9,0

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