900-330

Filmes em tempo real não são tão comuns. Filmes inteiros em plano sequência (ou num take só) menos ainda. Então só por ter aliado esses dois métodos de construção narrativa, o filme de Sebastian Schipper já merece a atenção que recebeu na maioria dos festivais por onde passou, mesmo que não ofereça muita coisa além disso.

Victoria (Laia Costa) é uma jovem espanhola que está morando em Berlim, onde que aparentemente não conhece muita gente. Em uma madrugada qualquer, na saída de uma casa noturna, ela conhece um grupo de rapazes que está rodando a cidade em busca de diversão e logo passa a andar com eles. O que começa como uma simples interação, acaba por tomar rumos inesperados quando ela se vê envolvida nos negócios inacabados que o grupo tem, que entre outras coisas, envolve a execução de um assalto.

victoria

A história e a personagem em si não são o foco por aqui, até por que ambos não possuem nenhuma característica que já não tenhamos visto antes. O grande trunfo desse filme é a forma como ele decide contar sua história e como essa escolha transforma completamente a experiência do expectador. Filmado em plano-sequência, em tempo real e integralmente com a câmera na mão, o filme nos coloca desde o primeiro minuto como um personagem que está ao lado de Victoria na noite mais frenética de sua vida. Estamos com ela enquanto gasta seu tempo em conversas triviais com os rapazes recém conhecidos, e como ela, somos arrastados pra cima e pra baixo pelas escolhas perigosas que eles fazem. Essa sensação palpável de testemunhar in loco os acontecimentos só existe graças ao magnifico trabalho de câmera realizado por Sturla Brandth Grøvlen, o cameraman. Trabalho tão essencial que ganha reconhecimento ao ter seu nome sendo destacado nos créditos finais, aparecendo antes mesmo do próprio diretor. Sua movimentação é livre entre as cenas, possibilitando a ele acompanhar ou não alguns personagens, mostrar ou não alguns detalhes, criando um senso de participação ainda maior, além de criar tensão e dúvida para o andamento da história.

Essa escolha que prioriza a imersão do público acaba deixando alguns aspectos técnicos em segundo plano, como a fotografia que sofre com a falta de foco, ou com a trilha sonora, que se confunde entre sons orgânicos e não-diegéticos. Em meio a essa experiência, o roteiro acaba sendo o ponto mais problemático da obra. A flagrante ingenuidade da protagonista, a mirabolância dos planos e a falta de verossimilhança nos acontecimentos e em suas consequências, acabam por nos tirar da história em vários pontos. A duração do longa também é um empecilho, acompanhamos Victoria por pouco mais de cento e trinta minutos, mas que poderiam ser reduzidas para uns cem minutos, no máximo.

Enfim, apesar de ter alguns problemas claros na história, Victoria se garante como uma experiência cinematográfica curiosa e muito bem realizada. Um filme imersivo e relevante, que merece muito ser visto.

Nota: 8,0

0 Total Views 0 Views Today