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 Eu particularmente acredito, e torço, para que exista um equilíbrio no universo. Se isso de fato existir, e se pra cada “Annabelle” que for lançado tivermos um “The Babadook”, eu com certeza serei um cinéfilo mais feliz.

Antes de começar com essa ‘resenha’ vale informar que, diferente do que acontece nas minhas outras críticas, pode ser que haja alguns spoilers aqui, mas leia sem medo, avisarei quando for começar. Isso porque eu gostei tanto do filme, que acho que ele merece uma análise mais “aprofundada”.

Amelia (Essie Davis) é uma mãe atormentada pela perda do marido, morto em um acidente enquanto a levava para a maternidade para ter seu primeiro filho, sete anos atrás. Seu filho Samuel (Noah Wiseman), é uma criança de comportamento difícil, que agora anda com medo dos monstros que se escondem embaixo da cama. Esses monstros eram iguais aos monstros que qualquer criança tem medo, mas após a mãe ler para ele um misterioso livro infantil chamado Mr. Babadook, ele passou a concentrar seu medo nessa criatura do livro. Inicialmente sua mãe não lhe dá muita bola, mas com o passar do tempo ela percebe que uma sinistra presença está rondando sua família.

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Tecnicamente o filme é impecável, I-M-P-E-C-Á-V-E-L. A fotografia soturna com uma paleta de cores sombrias nos faz imergir na atmosfera melancólica que a diretora quis imprimir na história. A trilha sonora é discreta o suficiente para não induzir sustos desnecessários, mas é competente e condizente ao nos colocar na espiral de insanidade e tristeza das cenas.

Não temos ‘jump scares’ aqui, todo o horror é realizado de maneira crescente e agonizante, baseado no comportamento dos personagens e na construção de uma atmosfera densa e opressora. Não temos violência gratuita e litros de sangue jorrando, o filme consegue perturbar o espectador sem apelar para truques gráficos, apenas tocando no lado psicológico como há muito tempo um filme não fazia (pelo menos pra mim).

Mas toda essa qualidade técnica, cujos méritos devem ser atribuídos a estreante diretora Jennifer Kent, poderiam ter sido desperdiçados não fossem duas atuações colossais dos protagonistas. A australiana Essie Davis entrega a melhor performance feminina do ano, que sai da tristeza para a loucura de maneira intensa, com cenas de surto quase animalescas e uma entrega total ao personagem. O jovem Noah Wiseman surpreende pela pouca idade, mas pelo tamanho do comprometimento com seu personagem. Ele faz às vezes de criança estranha e irritante, mas quando as coisas afunilam na trama seu amor pela mãe se mostra como principal motivação, e esse sentimento é altamente palpável e verossímil.

————SPOILERS A PARTIR DESTE PONTO———–

Como se tudo o que eu citei já não fosse o suficiente para transformar The Babadook em um grande filme, ainda temos a parte mais sutil, nas entrelinhas do roteiro, que o tornam ainda mais poderoso. Além de ser um dos filmes de terror mais eficientes dos últimos anos, ele se mostra uma das mais fantásticas representações da depressão que eu já vi no cinema.

“A vida nem sempre é o que parece. Pode ser uma coisa maravilhosa… mas também pode ser bem traiçoeira.”

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Amelia nunca se recuperou do luto, desde o principio a vemos como uma mulher cansada e triste. Antes mesmo de Samuel começar a “ver” o Babadook, ela já tinha o olhar vazio, perdido. Isso por que o Babadook é a depressão de Amelia tomando conta de sua vida, quando ela começa a perder o controle é que Samuel começa a “vê-lo”, é o sinal de que seu problema está começando a afetar a criança. Por isso o comportamento do garoto piora.

O ponto de vista dado ao espectador é como o olhar depressivo de Amelia para a sua vida. Várias pistas são deixadas para percebermos isso, como o fato de todos os adultos vestirem preto em uma festa infantil, um pouco incomum, quase inapropriado. Ainda na festa, quando todas estão conversando, Amelia está sentada enquanto todas as outras estão em pé a sua frente. O ângulo da câmera, de baixo pra cima, representa como ela se sente inferiorizada, acuada. Todas as mensagens deixadas pela linguagem cinematográfica.

–     Claire me disse que você é escritora.

–     Não realmente, não mais. – Responde Amelia.

–     Que tipo de coisas escrevia?

–     Eu escrevia alguns artigos para revista. Coisas de crianças.

 

Pra alguém que escreve para crianças, um livro infantil surgindo na prateleira de casa não é pra ser tão incomum. Aliás, ela queima o livro com gasolina em cima da churrasqueira. Em que momento ela suja as mãos? E por que o receio de que o policial veja suas mãos? Mais mensagens deixadas.

“Quanto mais negar, mais forte eu fico. Você começa a mudar quando eu entro. O Babadook cresce sobre sua pele.” Ouve Amelia em um de seus sonhos. Negar a existência de uma depressão é como criar um monstro, que vai te devorar de dentro pra fora até não restar nada. Mais claro, impossível.

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E o final, Amelia finalmente venceu a depressão? O Babadook foi embora? Não, acho que não. Ela apenas o trancafiou no porão de seu subconsciente, apesar de continuar o alimentando. O que é um perigo na verdade, mas é melhor aprender a “controlar” seus monstros do que sucumbir a eles.

————AQUI TERMINAM OS SPOILERS————

Enfim, ainda temos espaço para um show de linguagem cinematográfica, cheio de metáforas, com homenagens (justas e bem colocadas) ao expressionismo alemão lá da década de 20. The Babadook é uma pequena obra-prima do cinema, que tem um potencial imenso para se tornar Cult graças ao seu caráter ambíguo e sua flexibilidade de interpretações.

Por fugir dos clichês, por ir muito além do entretenimento, por ser primorosamente executado e por conseguir estar acima de um simples filme de gênero, afirmo categoricamente que The Babadook foi o melhor filme de terror que eu vi em muitos anos, além de ser o filme mais poderoso que eu vi em 2014.

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    • lorena gois

      na parte que o menino é jogado, eu interpretei como sendo o dano causado a ele indiretamente por causa da depressao da mae. apesar dela “nao tocar nele” e mesmo querer ajuda-lo, ele ainda é “jogado”. ate que ela consegue subjugar “o babadook”

  • Beto Moreira

    Cara que texto lindo. Eu já tinha gostado do filme é e você me apontou coisas que enriqueceram ainda mais a minha experiência. Vou assistir novamente para tentar ver mais elementos.

    Perfeito seu texto

    Abraços

    Beto

    blogcoisastriviais.blogspot.com

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  • Luiz

    O filme é bom ate a metade, depois deixa muito a desejar. Muitos pontos não são explicados. Como por exemplo, quem reconstroi o livro e escreve paginas a mais? O livro é fisico, é algo que realmente existe. A parte em que ele vai para o porão e ela o alimenta realmente é uma das mais toscas e sem nexo. Fez perder completamente o sentido do filme. Minha nota com muito esforço para o filme é 6,0

    • Mariana

      Se o marido "reaparecendo", ela podendo toca-lo e senti-lo faz parte da cabeça dela e de sua depressão, e  a cena do Babadook dentro do carro, onde o garoto também viu, por quê que o livro reconstruído não poderia ser obra da mente dela,  também?

      • Luiz

        Se for seguir a sua linha de raciocionio os filmes não precisam mais ter nexo neh? É so viajar na loucura do autor e ta tudo certo…
        Por favor né, quero sim, entender o contexto do filme e explicações obvias.

        • Lívia

          Explicações óbvias para filmes de gênero terror? Sério?

          • Luiz

            Vai assistir terror oriental vai… kkkkk é mais a tua cara… filmes com sentindo pra que neh? So fazer qualquer bagunça pq terror pode tudo kkkkkk

          • suquim

            Como metáfora, não falta ao nexo ao filme…

            “Quem reconstrói o livro?” É o mesmo que perguntar por que Jason some de um lugar e reaparece em outro do nada (Sexta-Feira 13).

            E sobre alimentar o monstro no porão, é a situação de quem está aprendendo a lidar com a depressão. Não dá para sumir com ela de uma hora pra outra, mas é possível conviver de maneira menos nociva. Um detalhe que reforça isso é quando ela pede ao filho para sair de casa enquanto ela tem de encarar o monstro. Ela não quer que o filho volte a sofrer por sua enfermidade. No entanto, o filho ajuda a mãe à colher as minhocas, ou seja, oferece apoio emocional. Enfim, pra mim tudo se encaixa muito bem.

          • Eliakim Simoes

            Você leu o texto Luiz? Esse filme é ambíguo, sujeito a varias interpretações. Você não é obrigado a gostar do filme, mas dizer que é ruim por que não tem explicações para esses tipos de coisa, não faz o filme ser ruim. Creio que faltou interpretação de sua parte.

    • Maria Clara Aragão

      Luiz… disse tudo amiguinho. Da metade pro fim o filme fica uma porcaria sem sentido nenhum. Alimentar o babadook com MINHOCA? Espantar o bicho com GRITO? A história do babadook não tem explicação… 6 foi generoso, eu dou 4 pro filme.

  • Ewerton William

    Ótima crítica, confesso que não havia entendido o filme, tampouco o final, mas agora tudo faz sentido. Parabéns!

  • Lívia

    O filme é um show de roteiro, e principamente um show de atuação dos personagens: mãe e do menino! Uma coisa que achei muito legal, é que de todas e quaiquer condições que a mãe estivesse, o filho sempre estava ao lado dizendo que a amava e que a protegeria. SUPER RECOMENDO!

  • Gutto Augusto

    Acabei de assistir o filme, foi o meu terceiro filme de terror de uma maratona nesta sexta-feira 13. Eu nao havia entendido o filme, assim que terminou, peguei o note e procurei por alguma resenha, e a primeira caiu aqui.
    Fiquei surpreso de ler tudo isso, e minha cabeca foi abrindo para tudo que vc disse. Realmente a sua resenha eh fantastica e extremamente bem interpretada.
    Depois de ler, o filme passou novamente em minha cabeca, e eh simplesmente muito bom. Obrigado por ajudar a entender. Abeaços.

    • Anderthon Luís

      Também acabei de assistir e não havia entendido, ótima resenha.

    • Monkey Man

      eu tbm vi ontem e gostei ainda mais do filme depois dessa critica.

  • Fabio Pereira

    Eu acho interessante observar 2 pontos:
    1- Ela tem esquizofrenia paranóide, não depressão. Virou um clássico dos filmes de terror atuais;
    2-A dor de dente é anterior ao livro, que faz parte da ilusão dela.Sinaliza que ela tem constantes crises, decorrentes da doença;

    Reparem que o esquizofrênico paranóide ele tem as crises também em torno de coisas que vê habitualmente. A vizinha idosa, sendo que ela trabalha com idosos. a irmã que só fala com ela, não com o filho, que tem medo dele, etc.A única cena foi a da festa.

    Esse filme tem referências a outros filmes, histórias infantis. E como em Donnie Darko, traz menções às pilulas antes de dormir, que é a hora da medicação também. Ela tenta colocar o filho como o responsável, e na verdade ela quem não toma o remédio, não consegue dormir e começa a ter alucinações.

    Quem não assistiu DD, assista.é bem similar a este e trata da mesma temática.

  • Felipe Riveiro

    Qdo vi, ontem, achei o filme ok. Lendo sua resenha, passei a considerá-lo genial. Eu sabia que tinha algo por trás da cena final do sótão e fui procurar alguma teoria – e a sua fez engrandecer o filmes. Parabéns!

  • sarah

    Eu, assim como muitos outros (eu acho), não havia entendido porque ela tinha ficado cuidando do babadook e tudo mais. Porém, por um azar da vida, passei uma semana sem net e só hoje pude pesquisar sobre. A princípio, achei que haveria uma continuação. Agora percebi como realmente o filme é fantástico e super criativo. Sem sustos forçados a todo instante. E sobre essa coisa toda da depressão, eu havia percebido que ela tinha um olhar triste, estava sempre com os cabelos bagunçados enquanto as outras (na festa, por exemplo) estavam impecáveis… Amei o filme. De verdade.

  • carla melani

    o que entendi foi que ela escreveu o livro, tudo o que estava em si ela passou pro livro…

  • Diego

    Ótima resenha. esclareceu o foco do filme, que, à meu ver, permaneceu obscuro sob seu discorrimento na maior parte do tempo. Embora tenha uma difícil compreensão, é um ótimo filme.

  • Hyuriel Constantino

    Agora me faz sentido o final. hehehe… Juro que fiquei boiando. Excelente resenha.

  • Viviane

    Não vejo como depressão, mas como esquizofrenia. Mas lendo sua resenha me lembrei que existe uma patologia esquiso paranoide, que implica numa depressão que leva a surtos psicoticos. Parece ser esse o caso da personagem.
    Filme muito bom, mas não entendi a mudança na criança (Samuel), pois no início do filme ele é colocado como um criança doente (na escola afirmam isso, a mãe não aceita e o tira de lá). Depois ele parece ser absolutamente normal, sem mais nem menos.

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