Crítica: The Stanford Prison Experiment (2015)

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Num dos primeiros posts do Taxi Café eu falei sobre o experimento da prisão de Stanford, realizado nos anos 70 pelo doutor em psicologia Philip Zimbardo. Na ocasião, falava sobre filmes baseados em fatos reais e citei dois que adaptavam a história desse experimento, A Experiência e Detenção. Eis que em 2015, o diretor Kyle Patrick Alvarez resolve recontar os acontecimentos daquela experiência de maneira mais fiel.

Em agosto de 1971, dezenas de jovens universitários se voluntariaram para participar de um experimento que pagaria a eles 15 dólares por dia. 24 foram selecionados e divididos em dois grupos, os prisioneiros e os guardas, que atuariam por duas semanas em uma prisão improvisada nas salas da própria Universidade de Stanford. Aos guardas foi dado um uniforme, óculos escuros para evitar contato visual com os prisioneiros, um cassetete e a recomendação para que usem de sua autoridade a fim de manter a ordem na prisão, evitando apenas o uso de violência física. Aos prisioneiros foi dado uma espécie de túnica branca, um capuz, um número de identificação pelo qual passariam a ser chamados e nenhuma recomendação de comportamento. Zimbardo e sua equipe ficariam observando o comportamento de ambos, com o intuito de analisar a influência que o poder e uma instituição podem ter nas atitudes de uma pessoa.

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Como a experiência em si é simples, a trama também é e o filme foi conduzido de maneira bem documental, então é quase como assistir aos acontecimentos e tentar entender a intenção e as conclusões a que Zimbardo chegou.

“Se você dá às pessoas poder sem supervisão, é uma receita para o abuso.”

Phil Zimbardo

Obviamente há considerações a serem feitas sobre a validade do estudo, mas não é algo que caiba aqui. O filme em si nos aponta pra vários sintomas bastante sombrios sobre a sociedade, como a influência negativa que o poder exerce mesmo em pessoas que não revelam traços de maldade anteriores. Como dizem, “a ocasião faz o ladrão” e o simples fato de ter a oportunidade e o respaldo é suficiente para nos fazer abandonar as próprias convicções e revelar traços de sadismo. Posteriormente, Zimbardo avaliou que essa noção negativa de poder está ligada a instituição e não ao poder individual. E como todos nós estamos dentro de uma instituição na maior parte do tempo, esse sadismo se revela não só em guardas de prisão, mas na sociedade como um todo.

Além desse viés “psicológico”, também podemos analisar a real ação que as instituições carcerárias e prisões exercem em seus internos. Se a carga negativa desse método que desconstrói a individualidade humana, afetou tão duramente jovens totalmente sãos e inseridos em um contexto social favorável, imagine o quão devastador isso é em casos em que o histórico é violento. É um método de perpetuação de ódio e violência que se retroalimenta de maneira não intencional. Qual é a serventia de instituições assim para a comunidade?

Antes de encerrar, é bom citar os outros méritos desse longa. Além de tocar em pontos relevantes e levantar questionamentos, ele ainda funciona como obra audiovisual. Conta com um elenco competente, com nomes jovens como Erza Miller, Tye Sheridan, Johnny Simmons e Thomas Mann, além de caras mais experientes como Billy Crudup no papel de Zimbardo, Michael Angarano, Olivia Thirlby e Nelsan Ellis. Todos vão muito bem, mas o destaque está em Miller, Angarano e Crudup, que dão as performances mais intensas. A fotografia e o figurino se aliam para situar o filme temporalmente e a caracterização dos atores é muito boa.

Enfim, The Stanford Prison Experiment é um filme intenso e relevante, que nos faz analisar vários aspectos de nossa sociedade. Tem um ótimo elenco e é tecnicamente bem realizado. Um filme que precisa ser visto

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  • Marcio Roberto

    Eu acabei de assistir, é de fato um bom filme. Embora tenha gostado mais do primeiro que era um filme alemão, eu curti este aqui e recomendo por todas as coisas que te faz pensar enquanto nos mostra o desenrolar da história. Ezra Miller também foi formidável aqui, meu filme favorito dele até agora foi o We Need To Talk About Kevin, que é mais um filme para te fazer pensar, e sentir.

    • Vinicius Salazar

      Preciso rever o alemão, mas acredito que sejam dois filmes complementares no que diz respeito ás reflexões. Como está mais fresco na memória, essa versão funciona um pouco melhor pra mim. E sobre o Ezra, em breve deve estar figurando nas grandes premiações, é um baita ator.

      • Marcio Roberto

        É porque este foi pra um lado mais próximo da realidade, o alemão não. É mais violento, dramático e com mais cenas fortes de violência e humilhação. Sim, sem dúvida!