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Campo fértil para a expressão artística criativa, o gênero do western americano encontra nesse Slow West (John Maclean, 2015), apesar de não ser americano, um refresco e originalidade ímpares no cinema moderno, reservada aos criadores independentes e aos poucos produtores autorais do grande circuito. Se Clint Eastwood criou um clássico do gênero já nos anos 1990 com Os Imperdoáveis (1992), emulando suas antigas passagens pelo gênero, e Quentin Tarantino concebeu mais um de seus clássicos instantâneos com Django Livre (2012), homenageando os consagrados, o novato John Maclean explora de forma impetuosa e profunda a América expansionista, sem perder em rodeios de divagações e crises de grandiloquência o seu ponto e mantendo a simplicidade e beleza do gênero.

O garoto era incrível. Via as coisas de modo diferente. Para ele, estávamos na terra da esperança e da boa vontade.

A originalidade da obra impressiona, tanto aos acostumados aos faroestes de antigamente quanto aos não apreciadores da categoria. Introduzindo seus personagens de forma concisa e coerente, o diretor e roteirista soube valorizar seu elenco de maneira elegante nos seus oitenta e quatro minutos de projeção, “falhando” somente no personagem do ótimo Ben Mendelsohn, Payne, que caiu na parte “concisa e coerente” da história talvez um pouco em excesso. A mesma qualidade tem sua trama. Simplista e rápida, acaba servindo, durante os acontecimentos, de alegoria ao fato histórico em que se ambienta o enredo, e a perspicácia desta é surpreendente.

Jodi Smith-McPhee (Planteta dos Macacos: O Confronto), em interpretação sólida, faz as vezes de Jay Cavendish, um jovem sonhador, ingênuo, que parte da fria costa escocesa ao escaldante coração da América em busca de seu amor perdido. O errante Silas Selleck (Michael Fassbender, em mais uma atuação de encher os olhos), não por acaso encontra em seu caminho Jay, em um confronto de falsários trajados de soldados, mas que não passam de destruidores daquela terra. Em sua primeira cena, Silas é revelado de forma misteriosa, velando seu rosto em trapos sujos, enquanto Jay, após passar pelos andarilhos da terra árida, vê a verdadeira face do Oeste. A relação de dependência da dupla é sensível, não se perdoando qualquer pensamento em contrário disso, e essa convivência se mostra cada vez mais necessária com o avanço da trama. A América não cresceu através da incredulidade e desesperança dos calejados, mas através da crença e utopia dos ingênuos.

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Tão imprudente é a busca de Jay pela sua amada quanto o sonho daqueles que partiram em busca de riqueza e acabaram desamparados e requerentes da afeição dos inveterados. Tão solitária e sem sentido é a sobrevivência de Silas quanto é a daquele pedaço de chão, que precisa da fé dos sonhadores para que prospere. Mas há mais na vida do que sobrevivência. Há a busca.

E nessa busca, o passado que tortura ambos sempre volta. Os arrependimentos de tempos antigos são recorrentes nas mentes dos dois, levando-os a seguir em frente, talvez em fuga ou indo de encontro aos seus demônios. Os seres que habitam as abrasivas terras estão fadados ao esquecimento, buscando desesperadamente que sejam lembrados por atos de atrocidade ou por terem evitado tais. Mas Jay e Silas encontram entre si a ligação inerente ao avanço. E essa ligação só é abalada pela petulância de um ou outro e pelo traiçoeiro motivo que os levou até aquele ponto. A América, o sonho, o amor, matam. E as únicas lágrimas serão as suas e as daquele que depende de você. Mas em uma terra onde, em pouco tempo, o que você acabou de fazer terá acontecido há muito tempo atrás, tudo é aprendizado, tudo é evolução, tudo é ensinamento.

A poesia visual, tanto na direção de Maclean, que é pensada em cada quadro e utiliza câmera na mão só em momentos chave, quanto na fotografia limpa e cítrica de Robbie Ryan, evidencia cada quadro, cada plano, adicionando beleza e esperança aos trágicos momentos. Dando espaço para a crença no melhor, no próximo passo, na próxima direção.

Do vencedor do Grande Prêmio do Júri (World Cinema) do Festival de Sundance de 2015 fica a novidade e a renovação em um excelente filme que mostra que a fuga da violência e do sofrimento se dá pelos sonhos e trabalho árduo.

NOTA: 10

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