Crítica: Scream Queens | Primeira Temporada

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Ryan Murphy é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores “Midas” da televisão americana na atualidade. Todos seus projetos são imediatamente abraçados pelas emissoras, especialmente a Fox, e despertam o interesse de grande parte do público. Sua mais recente empreitada foi Scream Queens, espécie de comédia de horror que encerrou sua primeira temporada na última semana e que apesar da morna recepção por parte do público, merece uma olhada mais atenta.

Uma sinopse rápida pra quem não faz ideia do que se trata: 20 anos depois de um incidente na fraternidade Kappa Kappa Tau levar uma de suas irmãs á morte, o campus da Universidade Wallace passa a ser palco da ação de um misterioso serial killer, que se veste como o mascote do time e mata qualquer pessoa que tenha relação com essa irmandade. Uma das novatas resolve investigar quem está por trás dos crimes, enquanto todas as outras jovens lutam para se manterem longe do assassino.

Scream Queens não é uma série convencional e saber disso é essencial pra curtir o show. Em termos de narrativa e principalmente de roteiro, o show exige doses altíssimas de suspensão de descrença pra trabalhar a sua proposta que transborda em absurdo e nonsense. A história remete aos slasher movies passados nos campus universitários americanos e sabe se utilizar desse ponto de partida para homenagear e parodiar o gênero, além de expor as estruturas cruéis que moldam a juventude do país, voltada para a superficialidade, vaidade e conflitos de ego.

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A série traz dezenas de personagens estereotipados justamente para esse fim, tirar pra ridículo o próprio ridículo, então eles destilam conceitos que evidenciam as futilidades e preconceitos da sociedade, mas de forma estranhamente metalinguística. É uma proposta arriscada, já que o show caminha sobre a linha de formatos e linguagens, sem se abraçar a nenhum deles. É inevitável se pegar pensando no que está assistindo, admitindo que o que acontece é absurdo demais pra ser sério, mas também é sério demais pra ser encarado como pura paródia.

O ótimo desempenho do elenco é fundamental pra comprar a proposta da série, Emma Roberts está muito bem no tipo de papel que tem se tornado sua especialidade, a de bitch mimada e superficial. Abigail Breslin e Billie Lourd convencem como suas asseclas e ambas tem seus momentos de brilho. Skyler Samuels como a protagonista idealista e determinada, Keke Palmer como a melhor amiga forte e decidida e Diego Boneta como o jovem misterioso e apaixonado estão precisos. Mas os melhores desempenhos ficam com a enlouquecida Lea Michele, com o afetadíssimo Glen Powell e com a sempre excepcional, Jamie Lee Curtis.

Em meio a tantas experimentações e transgressões na linguagem, o roteiro acaba sendo o ponto mais problemático desse primeiro ano, especialmente nos episódios finais. Ryan acabou se rendendo a algumas obviedades na hora das revelações mais importantes, além de se descuidar com alguns personagens e deixar muito evidente a tentativa remendar essas falhas posteriormente (Pete Martinez que o diga).

Enfim, Scream Queens não é o tipo de série que agrada todo mundo, mas que com certeza tem muito mais a dizer do que aparenta. É lotada de referencias ao universo dos filmes de terror e a cultura pop de maneira geral. Critica de maneira bastante inteligente e ácida os comportamentos que regem a juventude americana, abusando de um humor cínico e metalinguístico que funciona perfeitamente. É um produto transgressor, que desconstrói paradigmas estabelecidos dentro de seu gênero e reforça a relevância de seu criador, que não cria apenas fenômenos de popularidade, mas que usa-os para problematizar e dialogar com uma sociedade cheia de valores estranhos e essencialmente caótica.

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