Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo, disse o escritor americano Ernest Hemingway em seu livro “Por quem os sinos dobram”, citanto o poeta inglês John Donne. E sabemos disso, o ser humano é o tal do animal social, cujos instintos obrigaram desde tempos primórdios a conviver em grupos, como uma forma de contornar e superar suas limitações e medos. E em tempos em que somos escravos de nossas próprias necessidades, sempre focados no eu, no sentido mais externo e superficial da expressão, acabamos nos esquecendo um pouco disso, pelo menos até estarmos correndo algum tipo de perigo.

The OA é a nova série original do Netflix, criada pela talentosíssima dupla Brit Marling e Zal Batmanglij, responsáveis pelos excelentes A Outra Terra, A Seita Misteriosa e O Sistema. E é bom que se fique claro por aqui, se você conhece e não gosta desses filmes, dificilmente The OA será uma série pra você, já que o show funciona como uma condensação dos conceitos e estruturas deles, especialmente os dois primeiros. O estilo, o desenvolvimento e até mesmo a base temática conversa bastante com esses outros projetos. Na trama, conhecemos Prairie Johnson (Brit), uma jovem que volta para casa sete anos após desaparecer misteriosamente. Para aumentar o mistério, ela que era cega quando sumiu, voltou enxergando. Ela não fala para ninguém sobre as circunstâncias de seu desaparecimento ou o que aconteceu nesses anos, exceto para um seleto e disfuncional grupo de cinco pessoas que acabara de conhecer e do qual subjetivamente passamos a fazer parte.

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Há quem diga que a morte é o maior medo do ser humano. E é uma aposta bastante válida, essa. Mas sabendo de sua inevitabilidade, porque haveríamos de temer? Talvez o medo não seja da morte em si. Teorizamos, pesquisamos e inventamos diversas possibilidades do que pode acontecer depois da morte. Queremos que exista algo, que não seja realmente o fim, mas porquê? Talvez o nosso apego ao mundo material nos faça ter medo do fim, pois ele é vago, incerto e vazio. É como estar sozinho no escuro e não enxergar nada. Não fazer mais parte do mundo como conhecemos. No fundo talvez seja isso, as maiores dores humanas nascem do sentimento de não fazer parte. Não temos medo da morte, temos medo da solidão, do sentimento de não fazer parte de nada.

E voltamos ao tal do animal social, pertencer a um grupo é saudável para nós. Ter alguém com quem compartilhemos o minimo de afinidade, o menor interesse ou objetivo em comum, nos mantém vivos. E quando não encontramos isso em nossas famílias ou amigos, nós formamos novos grupos, nem que para isso tenhamos que nos forçar a acreditar nesse interesse em comum, seja um projeto, uma ideia ou até mesmo uma crença em um suposto ser angelical que faz belos passos de dança contemporânea.

Essa ideia de pertencimento nos ajuda em outros âmbitos também, por que nós seres humanos possuímos uma característica bastante nobre, que pode ser vista como um instinto grupal ou como um dom, nós sentimos a dor do outro. E somos – pelo menos alguns de nós – compelidos a deixar nosso próprio sofrimento de lado para tentar aliviar o sofrimento do próximo. Ajudar os outros nos ajuda. Veja o grupo que se forma ao redor de Prairie, pessoas com todos os tipos de sofrimento, luto, desamor, sacrifício, arrependimento, pessoas deslocadas e sozinhas, que se encontram nesse grupo, e que se esquecem por um momento de seus próprios problemas para ajudar o outro. E nesse momento nem importa quais são as intenções ocultas por trás do gesto.

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A narrativa de The OA nos insere nesse contexto de pertencimento, afinal, estamos naquela roda ouvindo a história de Prairie junto com os demais. E compartilhamos de todas as sensações que eles vivem, a desconfiança, o encantamento, a credulidade e até a decepção em certo ponto dos episódios. E se você também acreditou e depois se decepcionou com o desenrolar dos fatos, talvez valha dizer que o desfecho brinca com a magia da simplicidade. Não é necessário um feixe de luz interdimensional, quando uma simples coreografia da Sia resolve o problema, e isso não torna a intervenção menos “milagrosa”, não é mesmo?

Enfim, The OA faz jus ao currículo e ao que este que vos escreve espera desses realizadores. Brinca com ficção cientifica e fantasia, se guia por um mistério, mas é só a capa para um drama que trata de forma cadenciada sobre o nosso senso de pertencimento e sobre a nossa relação com aquele mal irremediável que é a morte, voltando a nos lembrar que é por nós que os sinos dobram.

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Avaliação.
Excelente

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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