Temos que admitir que está sendo mais fácil ser um entusiasta do terror no cinema brasileiro nos últimos tempos. Na rabeira do prestigio recuperado pelo gênero em Hollywood por filmes como O Babadook, Hereditário, It Follows, entre outros – ainda que alguns resistam a chamar essas obras de ‘filme de terror’ – os cineastas brasileiros lançaram algumas peças interessantíssimas do tipo, como O Animal Cordial e As Boas Maneiras recentemente, além de esforços bem honestos como O Diabo Mora Aqui e Quando Eu Era Vivo um tempinho atrás.

Infelizmente na TV o cenário é outro. Sequer podemos dizer que o gênero engatinha, mas talvez estejamos começando a rastejar, e para isso produções como Terrores Urbanos se fazem válidas e muito importantes, ainda que tropecem nas próprias pernas de vez em quando.

Terrores Urbanos é uma série em cinco episódios, produzida pela Sentimental Filmes para o Play Plus, serviço de streaming da Rede Record, que apresenta versões modernizadas de lendas urbanas muito populares no Brasil nas décadas de 80 e 90, como a Loira do Banheiro, a Gangue dos Palhaços, o Quadro do Menino que Chora, o Boneco Amigão (o Fofão sem direitos autorais) e o Homem do Saco. A criação de Maristela Mattos e Thais Falcão tem como característica marcante não parecer uma série brasileira. E isso vale para aspectos positivos e negativos.

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Nos aspectos positivos podemos citar a qualidade da produção em si, que em nada deixa a desejar a produções internacionais. A elaboração dos cenários e dos figurinos, fotografia e principalmente a direção. As tomadas burocráticas típicas da dramaturgia na TV aberta não são vistas aqui. Há um capricho na montagem e nos enquadramentos também, com uma movimentação de câmeras que emula bem os padrões de obras americanas do gênero, apesar de alguns exageros aqui ou ali.

Mas no lado negativo temos a estranheza na ambientação dos episódios, com exceção feita ao quinto deles, se não fossem falados em português seria difícil localizar as histórias numa realidade brasileira, especialmente nos dois primeiros capítulos. Temos escolas super elitizadas, mansões com sistemas de segurança moderníssimos… não que isso não exista no Brasil, mas o nome Terrores Urbanos evoca um outro tipo de ambientação.

E a verdade é que falta história para se contar em Terrores Urbanos. As lendas urbanas sozinhas não sustentam episódios de quarenta minutos por que, convenhamos, são narrativas bastante superficiais. Elas funcionam bem na oralidade por contarem com o preenchimento cultural de cada local do país e por nossa fértil imaginação também. E quando coube aos roteiristas dar sustância a essas narrativas, faltou talento. Até existe uma boa contextualização, pincelando temáticas atuais como bulimia, violência doméstica, o stress da maternidade e do trabalho, entre outros temas, mas para nisso.

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Essa falta de história acaba tornando a série absolutamente formulaica, onde todos os episódios repetem a mesma estrutura baseada no protagonista caminhando em direção a um surto psicótico, com a lenda se materializando no background, utilizando até mesmo as mesmas manifestações. Em literalmente todos os episódios tem uma ou mais cenas de sonho ou alucinação, ou de personagens interagindo com “coisas” que não exatamente o que eles pensam que são. E esses são apenas alguns exemplos de estratégias repetidas exaustivamente. É literalmente como se tivesse uma forminha onde todos os episódios foram gerados.

Dada essa falta do que contar e também do excesso de repetições do roteiro, a capacidade de funcionar como suspense ou terror fica a cargo da capacidade de cada diretor em criar uma boa atmosfera e do bom desempenho de seu elenco. E nesses quesitos os melhores resultados são alcançados por Juliana Rojas, em O Quadro do Menino que Chora, e Felipe Adami, em A Gangue dos Palhaços, seguido por Fernando Coimbra (O Lobo Atrás da Porta) em O Homem do Saco. Rojas e Coimbra não conseguem repetir seus desempenhos nos fracos Boneco Amigão e A Loira do Banheiro, respectivamente.

Em resumo, Terrores Urbanos não vai marcar época na televisão, nem mudar a forma como o público da tv aberta encara esse gênero, mas ele pode ser mais um passo rumo a aceitação do estilo. Tem resultados irregulares graças a falta de força do seu texto e ao desempenho desigual do elenco, mas o talento de seus diretores consegue extrair um clima capaz de pelo menos entreter uma horinha por dia.

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Avaliação.
Regular

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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  • Luiz Veríssimo

    Feliz que vc tenha voltado!!!
    Já vi muitos filmes bons graças a sua indicação, pretendo acompanha-lo novamente.

    • Vinicius Salazar

      Puxa, muito obrigado pelo reconhecimento. Quero manter uma regularidade maior agora!

      Sempre bom saber que estamos atingindo alguém de forma positiva. Abraços!


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