Existe entre os especialistas em criminologia um semi consenso do que define um assassino em série ou serial killer, se preferir: mais do que três vítimas com perfil semelhante e um método especifico de atuação em suas mortes. Mas esse não é o único tipo de “matador por atacado”, segundo a escritora Ilana Casoy temos também o assassino impulsivo (ou spree killer), que mata de maneira aleatória, movido por uma necessidade de matar, quase por esporte, sem necessariamente fantasiar com as vítimas. Ou o assassino em massa, que faz de seu crime um evento, com várias vítimas em um único local de uma única vez. São várias formas de catalisar o desejo e a necessidade pela violência.

Mas essas categorias não definem o protagonista de O Nome da Morte, talvez por que num país onde 60 mil pessoas são assassinadas num ano, a violência não é um desejo ou um hobby, é um oficio. Oficio no qual Julio Santana foi funcionário do mês todos os meses por mais de trinta anos, contabilizando quase 500 mortes em seu portfólio. Julio não matava por esporte, fetiche ou necessidade, matava por dinheiro e assim se tornou um expoente de uma profissão ainda muito popular nos rincões do Brasil: a Pistolagem.

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O filme dirigido por Henrique Goldman é baseado livremente no livro de mesmo nome, escrito por Klester Cavalcanti, e não é exatamente uma biografia, nos moldes que nos acostumamos a ver no cinema nacional, que elenca cronologicamente acontecimentos da vida de seu protagonista para que o público saiba o que aconteceu e como aconteceu. Tampouco é um estudo de personagem que entra na cabeça do biografado tentando entender os porquês de suas atitudes (ainda que flerte com isso em alguns momentos). É mais como um estudo de situação, que tenta apresentar as circunstancias que levam uma pessoa a escolher a vida do crime em nosso país.

Mas tenta – com certo sucesso – fazer isso sem o uso de filosofismo, sem tomar partido sobre a pureza do homem perante a sociedade corrompida e vice e versa. Ele apenas expõe as coisas, a miséria de alguns lugares do país e a falta de perspectivas que ela gera, a insignificância da vida, a sanha por prosperidade acima de tudo de algumas religiões, a banalização completa da violência e principalmente a impunidade que reina por aqui. Ele também trabalha em humanizar cautelosamente a figura monstruosa do matador, expondo-o como a pessoa comum que pode estar bem perto de você.

Como filme, O Nome da Morte tem um quê de western brasileiro, junto de uma aura de filme de gangster, construindo um vilão de forma que não pareça totalmente odioso. Trabalha com um senso de atemporalidade, sem datar os acontecimentos e usando o número de vítimas como marcador de tempo. A trilha sonora, apesar de bem feita, é muito óbvia. Músicas tristes para momentos tristes, músicas tensas para momentos tensos, como se precisássemos de instrução do que devemos sentir em cada cena, mas nada que comprometa a experiência.

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No quesito atuação a obra tem seu ponto mais alto. Marco Pigossi representa bem um homem introspectivo, de poucas palavras, que começa bastante emocional e vai ganhando frieza no decorrer do filme. Os coadjuvantes Fabíula Nascimento e André Mattos também entregam personagens sólidos, mesmo com pouco tempo de tela.

O Nome da Morte é um filme nacional interessante, que dá um viés autoral a uma biografia cem por cento brasileira, falando da tragédia marginal que assola o país sem tirar a responsabilidade do indivíduo, nem amenizar a influência da sociedade. Vale o tempo investido.

Você pode alugar O Nome da Morte aqui ou aqui.

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Avaliação.
Bom

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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