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Em uma periferia tipicamente brasileira conhecemos Teresa (Mariene de Castro),  uma mulher grávida que divide seu tempo entre o trabalho diurno, a criação de seu filho pequeno e a incessante tentativa de emplacar como cantora de rádio. Nessa realidade ela se vê cercada por três personagens bastante distintos: Shirley (Cadu Fávero), amigo e fiel escudeiro que a ajuda a criar o primeiro filho; Charles (João Baldasserini), um gentil ex-namorado que busca reatar com ela e que pode ser o pai do bebê; e Fernando (o cantor Otto), um policial corrupto com quem tem uma abusiva relação.

É com esses personagens que o estreante Ricardo Targino constrói uma mescla de estudo social com história de amor, realista e palpável, mas com problemas que comprometem o resultado final de sua obra. O cineasta escolheu uma linguagem original para tratar a realidade das periferias, trabalhando com a violência urbana e suas consequências sem a crueza que vemos em filmes do tipo. Ele prefere nos contar a história de uma maneira muito mais sublime, usando de sons e luzes em uma espécie de poesia visual, com uma fotografia muito bem capturada e recursos que funcionam para a beleza e para o significado das cenas.

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E um dos méritos do filme acaba por criar um de seus principais problemas: o excesso de intenções. Essas intervenções poéticas podem ser bem feitas e tornam a obra agradável ao olhar, mas acabam prejudicando o desenvolvimento e a relação inter personagens, que fica em segundo plano. E mais, ele falha na tentativa de mostrar o cotidiano da periferia, ao mesmo tempo em que à diversidade sexual, a luta pelo empoderamento feminino, novas constituições familiares, além da violência e da corrupção policial. Muito tema pra pouco filme, logo, nenhum recebe dedicação o suficiente.

O elenco vai relativamente bem, com destaque para Cadu Fávero no papel do crossdresser Shirley. Mesmo com pouco desenvolvimento ele rouba o filme pra si. Outro ponto fortíssimo está na trilha sonora, que conta com a presença de nomes fortes do cenário nacional, como Nação Zumbi, Arnaldo Antunes e Roberta Miranda, além de ótimas interpretações da protagonista.

Enfim, ‘Quase Samba’ sofre com sua tentativa de polivalência, mas funciona como alternativa aos retratos da periferia que vemos no cinema nacional, além de ser um sopro de originalidade muito bem vindo. Peca no roteiro, mas compensa em inventividade narrativa. Apesar dos defeitos, vale a investida.

 

Nota: 7,0

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