Eu sou uma das pessoas que mais reclama da escassez de bons filmes de terror, bato nessa tecla toda vez que vou escrever alguma crítica sobre um novo lançamento. Também costumo me chatear com a falta de cinema de gênero no Brasil, outra questão recorrente nos meus textos. Por isso estou realmente satisfeito ao ver as duas demandas sendo atendidas simultaneamente no inesperado ‘Quando eu era Vivo’.

Baseado no livro de Lourenço Mutarelli “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, ‘Quando eu era vivo’ é o segundo longa de Marco Dutra, diretor e roteirista de Trabalhar Cansa, e ganhou certo destaque em 2014, com críticas positivas e boa recepção do público, apesar do lançamento restrito (aliás, fator responsável por eu só ter visto agora). A trama acompanha Júnior (Marat Descartes), recém divorciado e desempregado que se hospeda no antigo apartamento onde cresceu, onde seu pai viúvo (Antonio Fagundes) ainda vive. Lá ele revisitará o sinistro passado de sua família enquanto se recupera do baque e tenta dar um novo rumo pra sua vida.

Logo de cara o roteiro nos mostra um certo histórico de ocultismo na vida de Júnior, principalmente por parte de sua falecida mãe, o que inclusive se tornará parte importante no desenvolvimento da trama, já que os efeitos que isso gera são sentidos na evolução do personagem. Filmagens de seu passado vistos em uma fita VHS antiga também colaboram ao nos mostrar os hábitos curiosos aos quais Júnior foi exposto, além do contato com objetos que pertenciam a mãe e que estavam encaixotados há muito tempo. Tudo isso ajuda a a criar o clima sombrio que ronda o lugar, e gradualmente a exposição a esse passado começa a mexer com a cabeça do protagonista. O longa foge de clichês e de métodos batidos, como a reviravolta e os jump scares, mas não deixa de expor um teor referencial a obras populares do gênero. Marat Descartes homenageia claramente Jack Nicholson em ‘O Iluminado’, a presença de Sandy no elenco e de sua personagem no filme remetem ás obras mais cultuadas de Edgar Allan Poe, além do filme em si ter um ar “Shyamalanesco”.

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Tecnicamente o filme também vai bem, o diretor sabe usar o cenário como componente indispensável para a narrativa e faz o ambiente familiar e iluminado de um apê no subúrbio paulistano, se transformar em um local fúnebre e denso, repleto de penduricalhos e bibelôs funestos, além de quadros de gosto duvidoso. Méritos para a direção de arte e para o ótimo trabalho de fotografia. A parte sonora também está de parabéns, o som de portas e móveis se destacam de maneira importante, e a música que tem o peso de um personagem é excepcional. A escolha de elenco tem mais valor do que as atuações em si, já que Descartes, Fagundes e principalmente Sandy, combinam com o jeito de seus personagens, mas nenhum deles se destaca muito e nem compromete.

Dutra ainda encontra tempo para brincar com a cultura de terror brasileira, como o apresentador infantil com citações demoníacas, o disco de vinil rodando ao contrário e a fenomenal presença de um boneco do Fofão em cena. Ótimos momentos.

Enfim, ‘Quando eu era vivo’ é um ótimo exemplar de terror psicológico ‘made in Brasil’, mesmo com algumas falhas ele tem construção caprichada e um subtexto relevante (apesar das questões em aberto). Vale o tempo investido e a torcida para que o cinema de gênero ganhe cada vez mais espaço em terras tupiniquins.

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Avaliação.
Bom

Vinicius Salazar

Co-criador e palpiteiro do TaxiCafe. Editor do Podcast Chutão.

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