O Lamento (The Wailing / Goksung – 2016)

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Não deis lugar ao diabo, pois em qualquer brecha o inimigo faz a festa. Uma frase feita, típica de pregações neo pentecostais, mas que numa análise menos teológica pode se referir ás várias concepções a respeito do mal, seja ele filosófico, metafórico, espiritual, ou até mesmo físico.

A trama do novo filme de Hong-jin Na, tem inicio quando uma onda de assassinatos violentos assola uma pacata vila sul-coreana. Esses crimes coincidem com a chegada de um misterioso forasteiro que faz morada na vizinhança, o que desperta medo e desconfiança nos locais. Entre os moradores está o policial Jong-Goo (Kwak Do-won), que comanda a investigação quando sua própria filha se torna um alvo, agora ele conta com a ajuda de um xamã para encontrar o culpado das mortes.

Com um desenrolar cadenciado, O Lamento (The Wailing / Goksung) nos conta uma história essencialmente folclórica, sobre guardiões, demônios, xamãs e sobre uma parte interessante da cultura oriental que conversa bastante com as noções religiosas ocidentais. Mas indo além dessa leitura, podemos ver as várias maneiras que o mal tem para entrar na vida das pessoas, disfarçado de proteção, disfarçado de boa intenção, de conexão com o divino. Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você, dizia Friedrich Nietzsche. Dependendo de como você combate o mal, acaba se tornando o mal, ou abrindo a porta para ele. É um dos recados que esse filme passa.

Ele fala sobre o pecado, não exatamente numa concepção religiosa, mas humana, mostrando como é tênue a linha que separa a culpa da inocência, questionando onde a busca por justiça se transforma em vingança. Nesse sentido podemos sentir uma forte crítica ao uso que as pessoas dão á religião e a fé e o poder destrutivo de falsos guias e profetas.

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O roteiro brinca com as expectativas, contando uma história relativamente simples de uma forma complexa, mas não indecifrável ou inacessível. Ele apresenta seus personagens e vai os construindo de maneira dúbia, sem explicar quem é quem e quais são suas reais intenções, nos dizendo muito em cenas que aparentemente não tem grande propósito. E é nesse ponto que o filme dá uma leve derrapada, ele exige atenção aos detalhes, o que não seria um problema não fossem as duas horas e quarenta de duração. Em alguns momentos o desenvolvimento fica um pouco enfadonho, mas não é nada que chega a comprometer.

O conjunto fotografia + trilha sonora funciona bem demais, é uma combinação imersiva, que nos coloca no meio daquela vila e ao mesmo tempo nos dá a impressão de que tem alguém ou algo na espreita. Nesse ponto a gente se lembra que é um filme de terror, que aliás, caminha entre alguns subgêneros, como o de possessão e o de contágio, chegando a flertar com os zumbis em alguns momentos. E o filme consegue construir uma atmosfera de horror sem apelar aos truques típicos do gênero, como jump scares e alterações de volume.

Enfim, O Lamento é um grande filme, horror atmosférico, repleto de mistério e com muita a coisa a dizer em suas entrelinhas. Um dos belos exemplares do gênero nos últimos anos.

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  • Delfim Ribeiro

    Sinceramente, lamento ter visto. Teria ficado com uma impressão melhor.

  • Mateus Vanita

    Esse filme fugiu tanto ao clichê que o achei ruim. Que final foi aquele? O que o policial fez de tão ruim pra merecer aquilo?

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