Crítica: O Homem mais Procurado – A espionagem sem o Glamour

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Esqueça a ação, o glamour e os Martinis dos espiões conhecidos no cinema, substitua por uma dose de whisky, um cigarro e muita, muita paciência. Temos O Homem mais Procurado, excelente thriller de espionagem de Anton Corbijn.

 

O filme é baseado em um romance de John Le Carré, autor que teve outro livro de espionagem transformado em um excelente filme recentemente, O Espião que Sabia Demais. Inclusive os dois filmes tem suas semelhanças, principalmente no que diz respeito ao tom mais calculista e politico presente de maneira forte e convincente em ambos.

 

O roteiro escrito por Andrew Bovell mostra Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin), um imigrante checheno que acaba de entrar ilegalmente na Alemanha. Ele é rapidamente detectado por um Serviço de Inteligência Alemã, comandado pelo competente Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman), que resolve usar seu “visitante” como isca para chegar em um poderoso empresário, cujas obras de caridade talvez sirvam de fachada para financiar organizações terroristas. Assim Günther começa a construir uma rede de informantes, que passa pela jovem advogada Annabel (Rachel McAdams) e pelo poderoso banqueiro Tommy Brue (Willem Dafoe).

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Durante as duas horas de projeção somos colocados em um jogo de paciência e manipulação ao lado de Gunther, interpretado brilhantemente pelo já saudoso Hoffman, e também somos expostos as suas consequências, como a privação de todas as necessidades pessoais de quem segue essa carreira. O ritmo lento com que acompanhamos seu trabalho, também parece perfeitamente estudado para retratar fielmente quão exaustivo é o processo utilizado por Gunther, que usa as pessoas a sua volta como degraus para atingir seu objetivo.

 

Percebemos também que a profissão de Gunther faz com que sua vida inteira se resuma a trabalho, com seus dias lotados de batalhas entre departamentos, burocracia e cansaço, bem demonstrados pelos seus passos calculados, sua voz rouca e cansada e um cigarro sempre a mão.

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A fotografia fria e sombria ajuda conceder um ar de mistério e espreita nas paisagens da cidade de Hamburgo, onde o filme se passa. O excepcional elenco de apoio faz muito jus aos seus momentos na tela, Rachel McAdams, Nina Hoss, Willem Dafoe e Robin Wright estão excelentes, como de costume. A única ressalva fica ao desperdício de Daniel Bruhl, um ator sempre competente e expressivo, mas que aqui se resume servir quase de figuração.

 

A ótima condução de uma narrativa calma e bem construída, também nos dá noção do quão talentoso é o diretor Anton Corbijn, que vez ou outra nos brinda com uma bela metáfora visual, além de imprimir um senso de tensão e expectativa gigante no simples ato de assinar um documento. Um trabalho digno de aplausos.

 

Enfim, O Homem mais Procurado é um filme maduro e bem escrito, que consegue expor a complexidade de relações diplomáticas de maneira coesa, mas sem ser didático; apresenta de maneira sufocante o perigoso trabalho de espionagem, além de pincelar a amarga sensação de fracasso que temos que encarar no âmbito geral de nossas vidas.

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Ao final da fita também percebemos o quão grande foi a perda do cinema com a morte precoce de Philip Seymour Hoffman, um dos mais fantásticos atores cujo trabalho eu tive o prazer de acompanhar. Vai fazer muita falta.

 

Nota: 9,0

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