Crítica: O Abutre | Tragam um Oscar para esse rapaz

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Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) é um cara solitário que vive de pequenos crimes, como roubar cercas e fios para vender. Apesar dessa descrição poder evocar algum tipo de mediocridade no personagem, sua ambição e dedicação aos ofícios que aprende via cursos online lhe dão um tipo de brilho. Isso é meio controverso. Tal qual o desenrolar desse fantástico thriller de estreia do diretor Dan Gilroy.

 

Esse estranho sujeito descobre uma vocação quando testemunha a ação de um cinegrafista (Bill Paxton), que registra um acidente de carro com a intenção de vender as imagens para as redes televisivas estamparem seus telejornais. Não demora até que Lou adquira seu próprio equipamento e passe a filmar as mais variadas tragédias, com o mesmo intuito. Rapidamente sua estranha “proatividade” faz com ele não se contente em filmar os acontecimentos, e passe a interferir diretamente neles. Apesar do tom de crítica a esse tipo de “jornalismo” ser sentido facilmente em uma primeira análise, é bom ressaltar que o maior mérito do roteiro é atacar de maneira velada a audiência sádica que consome esse material. Afinal, não haveria oferta se não existisse demanda.

 

Lou demonstra traços de uma sociopatia latente com suas frases diretas e suas observações feitas de maneira tão fria que parecem ter sido retiradas um manual escrito de conduta. Manual que não o ensinou bem a lidar com as pessoas, já que ele demonstra não entender certas convenções sociais estabelecidas. Vide os diálogos que ele tem, principalmente com a personagem de Rene Russo. Sem falar que ele é o único que parece não ver suas atitudes como algo moralmente errado.

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A criação da personalidade de Louis Bloom é fantástica graças ao melhor trabalho da carreira de Jake Gyllenhaal, que cada vez mais demonstra ser um dos melhores atores de sua geração. Ele sempre traz um sorriso frio e sem emoção, aparentemente sedento por algo, acompanhado de uma aparência magra, meio curvada e com olhos assustadoramente arregalados, realmente remetendo um abutre ou um coiote, ambos animais essencialmente carniceiros como a profissão de Bloom pede que as pessoas sejam.

 

A controvérsia que eu disse lá no começo diz respeito a estranheza que o desenrolar da narrativa apresenta, deixando claro o tom de crítica a esse mercado oportunista e sádico, mas ao mesmo tempo celebrando o modus operandi de Bloom, como se constatasse que aquela profissão pede aquele tipo de conduta. Essa sensação fica ao notar o fascínio (meio que nervoso) que Bloom causa em seus colegas de profissão.

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Gilroy se destaca bastante em sua direção, a noite urbana é filmada de maneira lutuosa e vazia, mesmo com toda a movimentação. Ele encaixa a trama do filme no ambiente noturno tão bem, que nas poucas vezes que vemos a luz do dia essa nos causa um estranhamento bastante incomodo. A principal sequência de ação do longa também é muito bem realizada.

 

Enfim, O Abutre é um filme excepcional, uma produção tensa e angustiante, cheia de questionamentos e que tem  algo relevante a dizer. Um filme que foge do moralismo, com um senso de humor sinistro e um dos melhores estudos de personagem dos últimos anos, graças a uma atuação brilhante e um roteiro minuciosamente escrito. Um dos melhores filmes de 2014.

 

Nota: 9,5

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